Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro¹
Erik Olin Wright (1947–2019) foi um sociólogo norte-americano e um dos pensadores mais influentes da teoria social contemporânea. Formado em História pela Universidade de Harvard, doutorou-se em Sociologia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, em 1976. Tornou-se professor titular na Universidade de Wisconsin-Madison, onde lecionou por mais de quatro décadas e orientou gerações de pesquisadores. Sua carreira foi marcada por um engajamento crítico com o marxismo, reinterpretado por meio de ferramentas analíticas rigorosas, o que o situou entre os expoentes do “marxismo analítico”, corrente que busca conciliar o rigor metodológico das ciências sociais com a radicalidade da tradição socialista.
Wright dedicou-se a desvendar as estruturas das desigualdades sociais, especialmente as dinâmicas de classe. Sua obra-prima, Class Counts (1997), propôs um modelo multidimensional para analisar as classes sociais, incorporando não apenas a relação com os meios de produção (como na tradição marxista clássica), mas também hierarquias de autoridade no trabalho e qualificações profissionais. Posteriormente, em Envisioning Real Utopias (2010), ampliou seu escopo para investigar alternativas sistêmicas ao capitalismo, trabalho que culminou em Como Ser Anticapitalista no Século XXI (2019), publicado pouco antes de sua morte.
O Conceito de Utopia Real
No cerne do pensamento de Wright está a ideia de “utopias reais”, que ele define como experiências sociais existentes que prefiguram instituições mais igualitárias e emancipatórias, demonstrando a viabilidade de um mundo pós-capitalista. Diferente das utopias abstratas — sonhos irrealizáveis —, as utopias reais são práticas e estruturas que operam dentro do capitalismo, mas contra sua lógica, abrindo fissuras no sistema.
A Utopia Real Urbana
A construção de cidades inclusivas, igualitárias, democráticas e ambientalmente sustentáveis não é apenas uma aspiração técnica, mas um projeto político radical. Essa visão dialoga profundamente com o conceito de “utopia concreta”, proposto por Wright em Como Ser Anticapitalista no Século XXI (2019). Para o autor, uma utopia real não é um sonho distante, mas uma alternativa viável ao capitalismo que pode ser experimentada e ampliada no presente, dentro das fissuras do sistema vigente. Articular esse conceito com o desenvolvimento urbano significa transformar as cidades em laboratórios de práticas sociais, econômicas e ambientais que prefigurem um futuro pós-capitalista.
Wright argumenta que o anticapitalismo deve se materializar em “experiências emancipatórias” que demonstrem a possibilidade de sociedades baseadas em justiça social, democracia radical e sustentabilidade. No contexto urbano, isso implica:
1) Inclusão e Equidade como Antídotos à Mercantilização:
Cidades capitalistas são marcadas pela segregação espacial, especulação imobiliária e exclusão de grupos marginalizados. Um desenvolvimento urbano inclusivo exige políticas como habitação social não mercantilizada (ex.: cooperativas de moradia, trustes comunitários), transporte público universal e acesso democrático a equipamentos culturais e verdes. Essas iniciativas são “utopias concretas” porque desafiam a lógica do lucro e criam espaços onde o valor de uso prevalece sobre o valor de troca.
2) Democracia Radical na Gestão do Território:
Wright defende a democratização das instituições para além da representação formal. Nas cidades, isso se traduz em mecanismos como orçamento participativo, conselhos populares de planejamento urbano e auditorias cidadãs sobre megaprojetos. A ocupação do Parque Gezi (Turquia, 2013) e os movimentos por “cidades feministas” (ex.: Barcelona) ilustram como a gestão coletiva do espaço pode subverter hierarquias de poder.
3) Sustentabilidade Ambiental como Projeto Antissistêmico:
A crise climática é um produto direto da acumulação capitalista. Cidades sustentáveis, portanto, precisam romper com a exploração predatória dos recursos. Projetos como comunidades energéticas descentralizadas (ex.: cooperativas de energia solar), agricultura urbana regenerativa e mobilidade zero carbono não apenas reduzem danos, mas criam economias locais não alinhadas à lógica do crescimento infinito.
4) Estratégias para uma Transição Urbana Anticapitalista:
Para Wright, a mudança ocorre através de três vias interligadas: ruptura, interstícios e simbiose. Aplicadas ao urbano, essas estratégias podem ser assim operacionalizadas:
- Ruptura: Greves de inquilinos contra aluguéis abusivos, ocupações de prédios vazios para moradia popular e protestos contra megaprojetos ecocidas (ex.: Porto Maravilha, no Rio de Janeiro).
- Interstícios: Criação de instituições paralelas, como bancos comunitários, moedas locais (ex.: Bristol Pound) e hortas urbanas autogeridas, que funcionam à margem do mercado capitalista.
- Simbiose: Pressão por políticas públicas que ampliem esferas não mercantis, como a taxação de grandes fortunas para financiar parques públicos ou a regularização de favelas com titulação coletiva.

Foto: Rovena Rosa (Agência Brasil).
Desafios e Contradições
Wright reconhece que utopias reais coexistem com o capitalismo de forma tensa. Por exemplo, ecobairros sustentáveis podem virar “ilhas de privilégio” para elites e políticas de inclusão podem ser cooptadas por discursos neoliberais (ex.: “smart cities”, que aprofundam a vigilância e a exclusão). A chave está em garantir que essas experiências mantenham um caráter anticapitalista explícito, vinculando-se a movimentos sociais amplos.
Conclusão: A Cidade como Campo de Batalha
Articular o desenvolvimento urbano inclusivo com a utopia real de Wright significa enxergar a cidade não como um palco de conflitos isolados, mas como um espaço de construção cotidiana de alternativas sistêmicas. Seja nas ocupações culturais de centros abandonados, nas redes de economia solidária ou na luta por justiça climática, cada iniciativa é um passo para desnaturalizar o capitalismo e provar que outro urbanismo — mais justo, democrático e viável — já está em gestação.
Como escreveu Wright, “o anticapitalismo é o trabalho de ampliar as fronteiras do possível”. Nas cidades, esse trabalho começa com a ousadia de transformar ruínas do presente em sementes do futuro.
¹ Coordenador nacional do INCT Observatório das Metrópoles.