Proximidade territorial, distância social: segregação residencial na metrópole do Rio

A favela Pavão-Pavãozinho precedida pelos prédios da Avenida Atlântica, na zona sul do Rio de Janeiro: proximidade territorial e distância social entre as duas áreas.

A favela Pavão-Pavãozinho precedida pelos prédios da Avenida Atlântica, na zona sul do Rio de Janeiro: proximidade territorial e distância social entre as duas áreas.

Apesar das mudanças nas condições sociais observadas de 1980 para cá, tais como a elevação do nível de escolaridade da população, aumento da formalização do trabalho e redução das desigualdades de renda, a configuração do padrão de organização social do território da metrópole do Rio de Janeiro permaneceu praticamente inalterada por um lado, e com acentuação das desigualdades por outro.

Caracterizada fundamentalmente pelo padrão denominado núcleo-periferia, a organização social do território carioca conta com a existência de favelas espalhadas por todo o tecido urbano da metrópole, inclusive no dos bairros mais nobres. Para Marcelo Gomes Ribeiro e Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, autores do capítulo 4 do livro Rio de Janeiro: Transformações na Ordem Urbana, este fato evidencia a existência paralela de outro padrão de organização expresso pela ideia de proximidade física e distância social.

Além disso, segundo os autores, as condições de vida entre os moradores de favela e os moradores de não favela – isto é, os do “asfalto”, grosso modo falando – obedecem à hierarquia socioespacial da metrópole. Em outras palavras, vale dizer que as condições sociais da favela situada na periferia metropolitana não são muito diferentes das condições sociais dos moradores do asfalto daquela mesma região, ao passo que este mesmo comparativo ganha outra dimensão quando analisado o caso de favelas situadas em áreas do núcleo.

Em termos quantitativos, os moradores de áreas do tipo socioespacial superior (aquelas concentradas na parte mais rica da metrópole) ganhavam em média, tanto em 2000 quanto em 2010, 6,4 vezes mais que os moradores da favela localizadas nessas áreas. Se formos em direção à periferia, essa razão decresce para 2,9 vezes naqueles bairros de tipo médio superior, e para 2 nos de tipo popular médio. Assim, quanto mais longe do núcleo metropolitano, maior proximidade há entre as condições sociais dos moradores de favela e dos moradores de não favela.

A mesma lógica se aplica quando observados individualmente os casos de favelas situadas no núcleo e na periferia: as favelas dispostas em bairros nobres, mesmo distantes socialmente destes, aparentemente conseguem obter maior qualidade de vida, em virtude de sua proximidade territorial com os serviços do núcleo, do que as favelas situadas na periferia. Este ponto chama a atenção para o cuidado na análise das diferentes escalas espaciais, que assinalaram tendências de diversificação e polarização nos últimos 30 anos:

– Na segregação, mantém-se o modelo da dupla gramática: distância social e proximidade territorial (favela x bairro nobre); distância social e distância territorial (no caso de alguns bairros nobres concentrados no núcleo do município do Rio) e periferia metropolitana. No entanto, algumas transformações ocorrem no período: os bairros nobres ficam mais homogeneamente nobres com o deslocamento dos segmentos mais populares e médios; as favelas ficam menos homogêneas e as periferias mais diversificadas. Porém, tais mudanças não alteram a ordem urbana constituída. Ao contrário, acentuam essa ordem pela maior distância entre bairros nobres e favelas, bairros e periferia metropolitana – explica o professor Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, em entrevista ao Boletim Observatório das Metrópoles desta semana.

No capítulo dedicado à dinâmica imobiliária das classes sociais (cap. 10), Luciana Corrêa do Lago e Adauto Cardoso mostram dados que corroboram com tal panorama comentado por Ribeiro. Com base em informações do IBGE e dos últimos dois Censos Demográficos, todos os bairros que fazem parte do núcleo metropolitano se elitizaram ainda mais entre 2000 e 2010. Nesse rol, destacaram-se as regiões administrativas de Botafogo (com um acréscimo de 40% a 51% na concentração de categorias profissionais superiores), Copacabana (de 35% para 45%) e Tijuca (de 35% para 42%). A maior elitização dos bairros do núcleo se confirma quando observada a redução dos índices de categorias médias profissionais e de trabalhadores manuais nessas áreas, exceto para a Barra da Tijuca, que teve acréscimo de apenas 1% entre 2000 e 2010 no porcentual de categorias médias residindo na região em questão.

A ideia de que a organização social do território obedece à uma lógica hierárquica socioespacial, concentrando decrescentemente as camadas de maior renda em direção à periferia, também se ratifica quando analisadas as zonas intermediárias. Em regiões de tipo socioespacial médio, como Méier, Irajá e os centros de Nilópolis e Nova Iguaçu, na região metropolitana, também houve aumento no índice de categorias superiores e diminuição das categorias profissionais subjacentes. O Centro do Rio de Janeiro, enquanto distrito central, também entrou para esse grupo; em 2000 concentrava apenas 10,3% de categorias superiores e, uma década depois, passou a deter 18,8% dessa mesma faixa. No entanto, regiões centrais vizinhas, como Rio Comprido e São Cristóvão, apresentaram caminho inverso a partir de uma maior proletarização das suas classes sociais residentes, indicando o panorama de “degradação” sofrido pelos bairros centrais do município do Rio nas últimas décadas.

No caso das favelas, mesmo com o aumento pouco expressivo de categorias profissionais superiores na Cidade de Deus (de 1,8 para 2,6%), por exemplo, os dados ratificam evidências de proletarização da maioria. Segundo os pesquisadores, o decréscimo no número de categorias médias e o aumento no de trabalhadores manuais foi uma realidade unânime para todas as comunidades mensuradas.

* por Pedro Paulo Bastos – pesquisador do Observatório das Metrópoles (Rio de Janeiro)

 

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