Projeto 2.6. Direito à Cidade, Estrutura Social e a “Nova Classe Média”

O foco principal dos trabalhos sobre estratificação social das últimas décadas, na literatura internacional e também no Brasil, tem sido a situação de classe dos indivíduos. Esta diz respeito à posição dos mesmos no mercado e/ou no trabalho, e está diretamente relacionada a fatores como posição na ocupação (proprietário ou não), tipo de ocupação (função que exerce), renda e qualificações. Identificamos uma classe quando um grupo de indivíduos possui uma situação de classe em comum, dada pelo componente causal específico de suas chances de vida, na medida em que este componente é representado exclusivamente por interesses econômicos na posse de bens e oportunidades de rendimentos sob as condições do mercado de produtos ou do mercado de trabalho (Weber, 1979).

Há uma probabilidade de que indivíduos que partilham de uma mesma situação de classe venham a adotar reações semelhantes, já que estão em posições econômicas próximas. Mas nada garante que venham a adotar comportamentos e ações societárias – orientadas no sentido de um ajustamento de interesses racionalmente motivados -, e nem muito menos comunais – orientadas pelo sentimento de pertencimento a um grupo. Há uma chance de que isso aconteça, mas não há lei universal alguma que diga que vá acontecer. Os efeitos da classe podem se restringir, portanto, a um agregado de reações individuais semelhantes e amorfas, ou pode ser que nem mesmo isso ocorra. Por essa razão, tomar automaticamente um agregado estatístico de indivíduos classificados dentro de uma mesma situação de classe como proxy de um grupo social pode nos conduzir à graves equívocos em nossas análises.

Empiricamente as classes têm sido estudadas através de agregados de ocupações, ou os famosos “esquemas de classe”, como aqueles formulados por Wright (1978) e Goldthorpe (1995) na literatura internacional. A principal diferença entre eles está nos critérios utilizados para se agrupar as ocupações – e, consequentemente, os indivíduos -, que variam entre fatores como propriedade, qualificação, autoridade, tipo de contrato de trabalho, status da ocupação, setor de atividade e etc.

O esquema de classes desenvolvido pelo Observatório das Metrópoles, por exemplo, foi construído a partir de informações sobre a ocupação dos indivíduos, respeitando os princípios da divisão entre proprietários e não proprietários, a oposição entre posição de comando e de subordinação, trabalho não-manual e trabalho manual, considerando trabalho público e privado e os setores de atividade econômica. Com base nesses princípios, foram agrupadas as ocupações, de forma hierárquica, em 24 categorias sócio-ocupacionais e, por sua vez, reagrupadas em oito grandes grupos sócio-ocupacionais, como segue: dirigentes, profissionais de nível superior, pequenos empregadores, ocupações médias, trabalhadores do secundário, trabalhadores do terciário especializado, trabalhadores do terciário não-especializado, e agricultores.

Trata-se, portanto, de agregados de indivíduos que possuem situações de classe semelhantes; o que, como já falamos, não pressupõe nenhum tipo de comportamento orientado pelo sentimento dos atores de que o lugar deles é junto um dos outros. No entanto há uma probabilidade de que isso aconteça. Há uma chance de que indivíduos dentro de uma mesma classe venham a agir e adotar comportamentos orientados pelo sentimento de grupo/comunidade, o que nos remete ao conceito de grupos de status, definido por Weber (1979) como “todo componente típico do destino dos homens determinado por uma estimativa social específica, positiva ou negativa, de honra/prestígio” (p. 71). Essa honra, ou prestígio, podem estar ligados aos mais diversos fatores e, dentre eles, à situação de classe. Quando isso acontece, de uma situação de classe produzir, ou melhor, estar ligada a distinções de status, nos aproximamos da ideia de classes sociais (Giddens, 1973).

Se temos em nosso horizonte a ideia de tomar determinados “esquemas de classe” como grupos de indivíduos que compartilham interesses, práticas, estilos de vida, valores, aspirações e tipos de sociabilidade em comum, devemos nos munir de dados empíricos que possam nos auxiliar nesse processo. Para tanto, devemos ir além das informações fornecidas pelas bases de dados de instituições oficiais como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como os Censos Demográficos ou as PNADs (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), que nos abastecem apenas com os dados necessários ao estudo de situações de classe, como posição na ocupação, tipo de ocupação e setor de atividade. Torna- se fundamental, nesse momento, investir em pesquisas que busquem não apenas classificar os indivíduos em determinados conjuntos estatísticos, mas também procurar compreender a formação social desses conjuntos em grupos socialmente significativos, reais. Investigar dimensões como estilo de vida, aspirações, relações pessoais e atitudes significaria, portanto, dar um passo à frente em relação aos tipos de análises que têm sido desenvolvidas.

Como nos últimos anos se tem propagado o surgimento de uma “Nova Classe Média” no Brasil, torna-se importante uma avaliação mais substancial sobre seus interesses, práticas, estilos de vida, valores, aspirações e tipos de sociabilidade, de modo a podermos compreender se se constituem como um grupo social, de modo a fornecer subsídios análises das formas de coesão social em contextos metropolitanos.

Objetivo

Analisar a estrutura social das metrópoles brasileiras, participando do debate recente sobre a chamada “Nova Classe Média”, buscando compreender variadas dimensões de sua vida social, tais como: práticas e estilos de vida, valores e aspirações, hierarquias de status e relacionamentos.

Metas

(i) Avançar na análise da estrutura social das metrópoles brasileiras a partir de dados obtidos nas pesquisas domiciliares do IBGE referente ao esquema de classe construído com a variável ocupação (profissão), com especial ênfase às classes médias (novas e tradicionais);
(ii) Realizar a aplicação de um survey sobre o perfil da chamada nova classe média, que seja capaz de capturar variadas dimensões da vida social, tais como: práticas e estilos de vida, valores e aspirações, hierarquias de status e relacionamentos;

(iii) Analisar as formas de coesão social em contextos metropolitanos a partir da avaliação do esquema de classe e do resultado do survey.

Coordenação e responsabilidades

Luiz César de Queiroz Ribeiro – Graduação em Administração Pública (FGV – RJ), mestrado em Développement Economique Et Social (Université Paris 1) e doutorado em Arquitetura e Urbanismo (USP). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional- IPPUR/UFRJ. Responsável pela realização das análises.

André Ricardo Salata – Sociólogo (UERJ), possui mestrado e doutorado em Sociologia (UFRJ). É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUCRS. Responsável pela sistematização dos dados e realização das análises.