Participação na conferência “Human Development and Capability Association”

Ocorreu em Buenos Aires, entre os dias 30 de agosto e 01 de setembro, a conferência da Human Development and Capability Association (HDCA). Com o tema “Desenvolvimento humano e inclusão social em um mundo em urbanização”, o evento contou com a participação de pesquisadores do Observatório das Metrópoles.

Suzana Pasternak e Lucia Bogus do núcleo São Paulo apresentaram o paper “Urbanisation, human development and socio-spatial inequality in the Metropolitan Region of São Paulo“. Além disso, as autoras participaram da mesa redonda Popular culture and the urbanization or integration of the informal settlements.

Do núcleo Rio de Janeiro,  Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Marcelo Gomes Ribeiro apresentaram o trabalho “Segregação socioespacial e oportunidades objetivas das classes populares na metrópole do Rio de Janeiro, Brasil”. Confira abaixo o trabalho na íntegra.

 

SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL E OPORTUNIDADES OBJETIVAS DA CLASSE POPULAR NA METRÓPOLE DO RIO DE JANEIRO, BRASIL

Marcelo Gomes Ribeiro

Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro

INTRODUÇÃO

A segregação socioespacial das metrópoles brasileiras e latino-americanas é historicamente caracterizada pelo modelo centro-periferia. Em geral, o centro se apresenta como o lugar de concentração da classe superior da estrutura social e a periferia como o lugar de concentração das classes populares. No entanto, apesar dessa dicotomia observada em larga escala na análise espacial, percebe-se certa heterogeneidade social em toda a metrópole, tanto nas áreas periféricas pela presença de segmentos da classe média, como nas áreas do centro devido à presença da classe média e das classes populares. Isto é, essa caracterização referida acima diz respeito a uma concentração relativa, em que as áreas são geralmente permeadas por segmentos da população que ocupam diferentes posições na estrutura social.

No entanto, observamos que a periferia metropolitana tende a ter maior homogeneidade social do que as áreas do centro metropolitano. Apesar de uma maior tendência à heterogeneidade social nas áreas do centro, o que se observa é que a classe superior que concentra relativamente esses espaços exerce poder de dominação sobre as classes populares que ali residem e também sobre as classes populares que se localizam na periferia, porque é a classe superior que tem os recursos materiais e simbólicos e os mecanismos necessários para definir a estrutura socioespacial da metrópole como um todo.

O caso da metrópole do Rio de Janeiro é emblemático nesse sentido, pois além de apresentar o modelo sócio-espacial de segregação de centro-periferia, apresenta também outro modelo denominado proximidade física e distância social, considerando que na metrópole do Rio de Janeiro há favelas, inclusive na área central. Isso significa que a heterogeneidade social é verificada pelo duplo modelo de segregação socioespacial: centro-periferia e favela e não-favela.

Os espaços do centro metropolitano são também caracterizados pelas melhores condições materiais urbanas, o que define o fenômeno das desigualdades urbanas na metrópole e reforça ainda mais a segregação socioespacial, tendo em vista que o lugar de concentração da classe superior é também o lugar de concentração das melhores recursos urbanos (serviços e infraestrutura). Na medida em que existem segmentos das classes populares que residem na área central da metrópole, a questão que propomos neste trabalho é de saber se as classes populares que lá vivem têm oportunidades diferentes em relação às classes populares que vivem na periferia da região metropolitana. Ou seja, morar nas áreas da metrópole onde há melhores condições materiais urbanas, e onde a classe superior está concentrada, proporciona maiores oportunidades no mercado de trabalho que viver na periferia metropolitana?

A hipótese que sugerimos é que as classes populares que vivem no centro metropolitano não são capazes de transformar suas condições urbanas, tanto materiais quanto simbólicas, em maiores oportunidades em relação às classes populares que vivem na periferia. A análise das oportunidades será realizada através da aquisição de renda do trabalho das classes populares. Portanto, utilizaremos dados do censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, com base em uma análise de regressão multinível para a metrópole do Rio de Janeiro.

Este trabalho está organizado em mais seis seções, além desta introdução. Na segunda seção, procuramos discutir o modelo histórico de organização do território das metrópoles brasileiras e latino-americanas, denominado de centro-periferia. Na terceira seção, apresentamos algumas abordagens referentes ao efeito território, tendo em vista que utilizaremos de seus pressupostos para análise subsequente. Na quarta seção, apresentamos os procedimentos metodológicos e analíticos utilizados para teste empírico da hipótese que norteia este trabalho. Na quinta seção, procuramos refletir sobre os resultados obtidos, na perspectiva de dar uma interpretação consistente a luz do modelo de organização social do território metropolitano e do efeito território. Na sexta seção, realizamos as considerações finais, sumarizando os principais resultados encontrados.

ORGANIZAÇÃO SOCIAL DO TERRITÓRIO: MODELO CENTRO-PERIFERIA

O processo de urbanização ocorrido no Brasil no período de 1930 a 1980, que coincide com período de industrialização da economia brasileira baseado na política de substituição de importações, se deveu em grande medida ao movimento migratório campo-cidade e inter-regional, concentrando boa parte da população em alguns dos principais centros urbanos, com destaque para São Paulo e Rio de Janeiro, que naquele momento se constituíram coma as principais metrópoles do país, em termos populacional e econômico.

A chegada de expressivas massas populacionais nesses centros urbanos, que eram os lugares de concentração das atividades industriais do país e, portanto de concentração dos empregos gerados por aquele processo de desenvolvimento econômico, se deu de modo acelerado e num nível muito superior à exigência do seu mercado de trabalho. As pessoas que não conseguiram se inserir no setor formal do mercado de trabalho tiveram que cria estratégias de sobrevivência por meio da realização de atividades informais, muitas vezes precárias e desprotegidas. Essa situação manifesta no mercado de trabalho também ganhou sua expressão urbana, tendo em vista que a solução para o problema da moradia, principalmente da população imigrante, foi encontrada na periferia desses centros urbanos, lugares distantes de onde se concentrava os postos de trabalho.

O modo de organização do território metropolitano, nesse período, ficou conhecido como centro-periferia. O centro se caracterizava pela concentração das principais formas de emprego e era onde também se concentravam as melhores condições urbanas em termos de serviços e infraestruturas. Era, portanto, o lugar de concentração dos grupos sociais ou classes que ocupavam posições superiores na estrutura social dessas metrópoles. A periferia, por sua vez, se caracterizava exatamente em oposição às características do centro, tendo em vista que era o lugar distante da concentração de emprego, com precárias condições urbanas e onde abrigava os grupos sociais ou classes que ocupavam posições inferiores na estrutura social.

Os estudos urbanos realizados naquele período procuravam buscar explicação para essa forma de organização do território metropolitano, bem como para os mecanismos que levavam a sua constituição. As variadas interpretações tentavam caracterizá-los desde a ideia de marginalidade social manifestadas no território (CASTELLS, 1973; QUIJANO, 1973; SINGER, 2012) até a ideia de espoliação urbana (KOVARICK, 1993). Havia explicações que buscavam no bojo do processo de desenvolvimento econômico, em condições de dependência, as razões para que as principais cidades brasileiras e latino-americanas se configurassem no modelo centro-periferia (CASTELLS, 1973; QUIJANO, 1973). Outras explicações se apresentaram como críticas a essa interpretação (SINGER, 2012). E outras ainda buscaram nos mecanismos da acumulação urbana a explicação para essa configuração espacial, algumas delas tentando demonstrar que foi por meio da ação do Estado que esses mecanismos haviam sido operados (KOVARICK, 1993; VETTER et al., 1981).

Em análise realizada no começo dos anos 1980, Vetter et. al. (1981) analisaram a organização social do território da metrópole do Rio de Janeiro, por meio da utilização de técnicas denominada de ecologia fatorial, e constatou que sua configuração se expressava do seguinte modo: núcleo, zona de transição, periferia imediata, periferia intermediária e periferia distante. Nesse estudo, em que procuram explicar os mecanismos geradores dessa configuração espacial, a partir da análise de indicadores sociais, urbanos e fiscais, revelaram que os benefícios líquidos da ação do Estado se concentravam nas áreas do núcleo metropolitano e de seu entorno imediato (zona de transição), em detrimento do que acontecia nas periferias.

Vejam que a organização social do território metropolitano baseado no modelo centro-periferia se apresentou de modo consistente ao final daquele período de desenvolvimento econômico e intensa urbanização. De lá pra cá, ocorreram muitas mudanças no país. Com o esgotamento da política de substituição de importações e a consequente crise econômica e social que o país passou após os anos 1980, período em que ocorreu seu processo de redemocratização, houve mudanças significativas em sua estrutura econômica, quando se adotou a abertura comercial e financeira, passando por um processo de reestruturação produtiva e, mais tarde, de retomada do crescimento econômico (na segunda metade dos anos 2000), com significativa distribuição de renda. Tudo isso num contexto em que a maior parcela da população brasileira passou a viver nas cidades e parte expressiva dela morava nos seus principais centros urbanos. Diante de todas essas mudanças ocorridas no país, se passou a questionar a permanência do modelo centro-periferia como configuração da organização social do território metropolitano (LAGO, 2008; ANDRADE, 2016).

Em análise que realizamos recentemente sobre a organização social do território da metrópole do Rio de Janeiro, a partir de uma metodologia da ecologia fatorial, mas utilizando um esquema de estratificação sócio-ocupacional como Proxy da estrutura social, constatamos que mesmo tendo havido mudanças expressivas na configuração espacial da metrópole do Rio de Janeiro, o modelo centro-periferia ainda se manifestava numa escala macro como configuração de sua organização social do território (RIBEIRO; RIBEIRO, 2015). Em outro trabalho que buscou analisar a distribuição dos recursos urbanos no interior da metrópole, compreendidos por aqueles recursos de produção e consumo coletivos, necessários para garantir as condições de reprodução social na metrópole, verificamos as desigualdades de sua distribuição, também expressos pelo modelo centro-periferia (RIBEIRO; RIBEIRO, 2013).  É com base, portanto, nessas constatações que procuraremos verificar se o território metropolitano, expresso por esse modelo de organização social, exerce determinação nas oportunidades da classe popular no mercado de trabalho.

ABORDAGENS ANALÍTICAS DO EFEITO TERRITÓRIO

No período em que ocorreu o intenso processo de urbanização brasileira e latino-americana, os estudos urbanos procuravam compreender as razões e os mecanismos que explicavam o modo como os principais centros urbanos estavam se configurando espacialmente, demonstrando como a questão social, principalmente por sua relação com o mercado de trabalho, se expressava espacialmente, configurando o modo de organização social do território denominado de centro-periferia. É em período mais recente que nos países latino-americanos, e também no Brasil, que as análises inversas passaram a ocorrer, quais sejam: uma vez configurada a organização social do território metropolitano, a questão que se colocou foi a de saber se esse território exerce determinação nas oportunidades de vida das pessoas. Trata-se de verificar, portanto, se as desigualdades territoriais existentes nas metrópoles exerce explicação nas desigualdades sociais, denominado de efeito-território (ou efeito vizinhança).

Esses estudos sobre o efeito território surgiram inicialmente nos Estados Unidos a partir da publicação da obra The Tryly Disadvantaged: The Inner City, The Underclass, and The Public Policy, de W. J. Wilson (1987), em que o autor procurou explicar que a pobreza urbana e sua reprodução existente no gueto de Chicago se deviam às condições de mudanças estruturais ocorridas naquele país que levavam à situação de isolamento social dos pobres e negros daquela cidade. Por meio, portanto, do isolamento social foi inaugurada uma perspectiva de pesquisa em que procurou analisar o efeito território sobre as desvantagens entre os diferentes indivíduos no interior do espaço urbano. De lá pra cá, foram realizados muitos estudos sobre efeito território em diversos países do mundo, principalmente na América do Norte e também na Europa.

Esses estudos que se utilizaram do efeito território se preocuparam também em buscar explicação para os mecanismos produtores de desvantagem social. Esses mecanismos foram sistematizados por Ellen & Turner (1997), a partir de levantamento realizado em várias pesquisas que se preocuparam com o tema. Segundo as autoras, esses mecanismos podem ser classificados como: qualidade dos serviços locais; socialização dos adultos; influência de pares; redes sociais; exposição ao crime e violência; distância e isolamento. Porém, as autoras ressaltam que esses mecanismos podem operar em estágios diferentes da fase da vida. Aqueles mecanismos que costumam operar na fase adulta dos indivíduos normalmente são as redes sociais e a distância e o isolamento, principalmente para oportunidades relativas ao mercado de trabalho.

Small & Newman (2001) também realizaram um levantamento de trabalhos que utilizaram o efeito território para análise de vários fenômenos sociais. Dentre os estudos que identificaram, puderam constatar que, de modo geral, esses trabalhos poderiam ser classificados segundo dois modelos gerais: o primeiro modelo compreende os mecanismos de socialização, que procura analisar como a vizinhança socializa as pessoas que nela crescem; o segundo modelo compreende os mecanismos instrumentais, cuja preocupação é analisar como a agência dos indivíduos é limitada pelas condições da vizinhança (ou do bairro). Por este motivo, esses mecanismos são utilizados para explicar o efeito território sobre fenômenos relacionados com adultos, ao invés de crianças e adolescentes.

Esses autores têm sido referenciados em diversos estudos sobre o efeito-território, tendo em vista a análise dos mecanismos explicativos do território sobre os diversos fenômenos sociais. Neste trabalho, nos interessa utilizar principalmente os mecanismos que dizem respeito às oportunidades dos adultos (ELLEN & TURNEN, 1997) ou os mecanismos instrumentais (SMALL & NEWMAN, 2001), tendo em vista nosso objeto de análise que diz respeito às diferenças de obtenção de renda no mercado de trabalho na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Em período mais recente, vários estudos também têm sido realizados nos países da América Latina, em especial no Brasil, que tratam do efeito-território, apesar de essa perspectiva analítica não ter ainda sido plenamente disseminada no campo dos estudos urbanos (KAZTMAN, 1999; KAZTMAN, 2001; ALVES, FRANCO and RIBEIRO, 2008; SALATA and SANT’ ANNA, 2010; RIBEIRO and KOLINSKI, 2009). Esses estudos têm se concentrado, principalmente, sobre oportunidades referentes à educação e também ao mercado de trabalho. Dentre eles podemos citar o trabalho pioneiro de Ribeiro, Rodrigues e Côrrea (2009), que analisaram o efeito da divisão social do espaço urbano de várias metrópoles brasileiras sobre as condições de acesso à estrutura de oportunidades do mercado de trabalho. Neste sentido, procuraram analisar as chances (ou riscos) dos indivíduos situados em baixo, médio ou alto contexto de moradia de estarem desempregados ou de se encontrarem em condições de fragilidade ocupacional. Também procuraram relacionar o contexto social de moradia com os rendimentos obtidos no mercado de trabalho.

Uma das limitações existentes que envolvem análises sobre efeito-território diz respeito aos procedimentos metodológicos utilizados. Isso porque nos estudos referente ao efeito-território são utilizadas diferentes bases de dados, diferente modos de definição do território (bairro, vizinhança etc.) e diferentes métodos de análise. Mas também nesse terreno, há evidências de avanços significativos que têm propiciado análises mais acuradas sobre o efeito-território, como podemos observar no estudo de Roger Andersson e Sako Musterd (2010), que realizaram uma análise de três áreas metropolitanas da Suécia para verificar qual escala é mais apropriada para análise do efeito território. A partir da definição geográfica de escala, em que o nível mais elevado era a escala dos municípios que compõem as áreas metropolitanas, os autores testaram os seus efeitos, para o ano de 2002, utilizando-se de quatro variáveis de contexto – a porcentagem de desempregados em 1999, a porcentagem de não-migrantes em 1999, a porcentagem com renda nos três últimos decis de renda em 1999 e a porcentagem com renda nos três primeiros decis de renda em 1999. Para tanto, realizaram uma análise de regressão multinível, na perspectiva de separar os efeitos decorrentes dos indivíduos, propriamente dito, dos efeitos decorrentes do contexto em que estão inseridos sobre as diferenças de obtenção de renda no mercado de trabalho. Os resultados encontrados por Andersson e Musterd (2010) demonstraram que os efeitos da escala do município, que corresponde à maior escala, foram os mais fracos, atestando que as escalas menores exercem maior influência sobre as chances dos indivíduos.

Neste trabalho, como veremos a seguir, vamos utilizar da análise de regressão multinível para avaliar as diferenças de obtenção de renda da classe popular no mercado de trabalho da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICO E ANALÍTICO

Para testar a hipótese deste trabalho, procuramos analisar o efeito territorial sobre as oportunidades no mercado de trabalho da classe popular na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ). Para tanto, utilizamos os microdados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do ano de 2010. O procedimento analítico consistiu na realização de análise multinível em dois níveis: no primeiro, foram consideras variáveis referentes aos atributos dos indivíduos. No segundo, foram consideradas variáveis referentes ao território. Neste sentido, controlando pelos atributos dos indivíduos, o interesse deste trabalho consistiu em verificar se o território metropolitano exerce efeito sobre as oportunidades dos indivíduos no mercado de trabalho, em especial sobre as oportunidades referentes à classe popular (também denominada de trabalhadores manuais). Ou seja, as oportunidades dos indivíduos no mercado de trabalho serão diferentes a depender do seu local de moradia na metrópole? Se isto é verdadeiro, quais são os mecanismos que explicam essas diferenças de oportunidades? Essas diferenças ainda podem ser explicadas pela relação centro-periferia?

A análise da classe popular parte da constatação de que ela se encontra presente em todas as áreas da metrópole, apesar de em algumas delas esse segmento populacional ser predominante e em outras áreas conviver próximas de classes sociais que ocupam posição mais elevada na estrutura social. Neste sentido, despertou-se o interesse em saber se uma classe social que apresenta características muito similares entre si possui oportunidades diferentes no mercado de trabalho a depender de onde se situa seu local de moradia no interior da metrópole. Consideramos, inicialmente, que como se trata de um segmento populacional com baixo capital cultura e baixo capital econômico (BOURDIEU, 1997), suas oportunidades no mercado de trabalho nãos seriam diferentes em decorrência de onde se situa seu local de moradia, ou seja, as diferenças de obtenção de renda no mercado de trabalho não se explicariam em razão do seu local de residência, dado as características sociais desse segmento populacional.

A definição de classe popular partiu do esquema de estratificação sócio-ocupacional elaborado pelo Observatório das Metrópoles, construído por meio da variável ocupação (profissão), em que foram agrupadas de modo hierárquico 24 categorias, e estas classificadas em 8 grupos, a saber: Dirigentes, Profissionais de Nível Superior, Pequenos Empregadores, Ocupações Médias, Trabalhadores do Terciário Especializado, Trabalhadores do Secundário, Trabalhadores do Terciário Não Especializado e Trabalhadores Agrícolas. Esse esquema de estratificação foi elaborado de acordo com o conceito de espaço social de Bourdieu (2008), onde as ocupações são classificadas segundo sua representação em termos de capital cultural e de capital econômico, refletindo, portanto, posições sociais em termos de seu volume global de capital e, ao mesmo tempo, em termos de sua estrutura de capital. A classe popular, sob essa perspectiva, corresponde àquelas posições sociais que estão em oposição à classe dominante, sendo distintas social e simbolicamente no espaço social. Um dos critérios utilizados pelo Observatório das Metrópoles para construção de seu esquema de estratificação diz respeito às diferenças ocupacionais em termos de trabalho manual e trabalho não manual (RIBEIRO; RIBEIRO, 2013b). Considerou-se, portanto, a classe popular correspondente ao conjunto de trabalhadores manuais: trabalhadores do terciário especializado, trabalhadores do secundário e trabalhadores do terciário não especializado. Apesar de os trabalhadores agrícolas serem também trabalhadores manuais, optou-se pela utilização apenas das ocupações que são eminentemente urbanas, o que nos levou a não considerá-la nesta análise.

A RMRJ é a segunda principal metrópole do Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo em termos populacionais e econômicos. Com uma população em torno 12 milhões, em 2010, e um Produto Interno Bruto R$ 407,37 bilhões, em 2013, sempre apresentou um quadro interno de desigualdades historicamente verificado pela modelo centro-periferia, onde no centro metropolitano a população apresenta melhores condições de vida e, ao mesmo tempo, é onde são também melhores as condições urbanas; por outro lado, a periferia metropolitana se constituiu como sendo o lugar da ausência ou precariedade das condições urbanas, ao mesmo tempo o lugar de moradia das camadas sociais que ocupam posições mais baixas da estrutura social. Portanto, o centro metropolitano aqui tratado refere-se à sua dimensão social e não geográfica, propriamente dita, e se situa na área da metrópole denominada de Zona Sul (Copacabana, Ipanema, Leblon etc.), os bairros em torno da Tijuca (Vila Isabel, Grajaú e Tijuca) e também os bairros em torno da Barra da Tijuca (Recreio dos Bandeirantes e Barra da Tijuca), todos situados no município do Rio de Janeiro, que dá nome à Região Metropolitana. Ainda faz parte do centro metropolitano a Zona Sul do município de Niterói, município que foi capital do Estado do Rio de Janeiro até 1975. Além desses dois municípios, a RMRJ é composta por mais 18, a saber: Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Itaguaí, Japeri, Magé, Mangaratiba, Maricá, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São Gonçalo, São João do Meriti, Seropédica e Tanguá. Para análise do efeito território serão consideradas as áreas internas dos municípios que compõem a Região Metropolitana disponibilizados no Censo Demográfico do IBGE, tendo em vista que essas áreas internas, denominadas de áreas de ponderação, foram construídas por critérios de relativa homogeneidade demográfica (IBGE, 2010) e tamanho populacional, ao contrário da utilização dos municípios que são muito diferentes em termos populacionais. Além disso, a utilização das áreas de ponderação tem a vantagem de possibilitar uma análise mais detalhada do território metropolitano porque elas correspondem a um total de 338 áreas.

O procedimento operacional para a realização da análise do efeito território consistiu na análise multinível, em dois níveis analíticos. No primeiro, foram considerados os atributos dos indivíduos: características adscritas (sexo, cor ou raça e idade), características adquiridas (escolaridade) e características de sua inserção no mercado de trabalho (relação de trabalho – se formal ou informal – e horas trabalhadas). Diferenças de obtenção de renda em decorrência de sexo e cor ou raça expressam efeito discriminatório do mercado de trabalho; diferenças de obtenção de renda em decorrência de escolaridade e relação de trabalho expressam efeito de segmentação do mercado de trabalho (BARROS; MENDONÇA, 1995).

No segundo nível foram consideradas três variáveis que expressam condição territorial: (i) a proporção de pessoas que realizam deslocamento casa-trabalho diariamente de 1 hora ou mais em relação ao total de pessoas ocupadas; (ii) a proporção de pessoas de 25 anos ou mais de idade com nível superior de escolaridade; (iii) a proporção de pessoas de cor preta. A primeira variável expressa a condição de segmentação territorial, o que nos permite classificá-la por meio de mecanismo instrumental de acordo com Small & Newman (2001), tendo em vista que ela reflete a distância do local de moradia e os lugares de concentração de emprego, ao mesmo tempo que pode revelar as condições de deslocamento existente na metrópole. A segunda variável expressa as condições sociais de cada área da metrópole, ao mesmo tempo que possibilita uma interpretação em termos de constituição de capital social, tendo em vista que onde há maior concentração de pessoas de 25 anos ou mais de idade com nível superior de escolaridade pode haver maior possibilidade de obtenção de maior renda, isso seria decorrente da mistura social apresentando-se como um contexto social propício à formação de capital social. A terceira variável expressa uma dimensão de discriminação moral do território, tendo em vista que áreas em que há grande presença de pessoas de cor preta podem sofrer negativamente as oportunidades no mercado de trabalho no que diz respeito à obtenção de renda.

O quadro 1 sumariza as informações de cada uma das variáveis utilizadas no modelo multinível.

QUADRO 1: DESCRIÇÃO DAS VARIÁVEIS DO MODELO MULTINÍVEL

NOME DESCRIÇÃO REFERÊNCIA
Variável dependente
Renda do trabalho Logaritmo do rendimento do trabalho principal Variável contínua
Variáveis independentes do primeiro nível
Escolaridade Construída segundo níveis de escolaridade:
a) Sem instrução e fundamental incompleto;
b) Fundamental completo e médio incompleto;
c) Médio completo e superior incompleto;
d) Superior completo.
Sem instrução e fundamental incompleto
Sexo Construída segundo o sexo:
a) Masculino;
b) Feminino
Feminino
Cor ou raça Construída segundo a cor ou raça:
a) Branca;
b) Não branca (Preta + Parda)
Não branca
Formal Construída segundo a relação de trabalho:
a) Formal (empregados com carteira de trabalho assinada);
b) Informal (empregados sem carteira de trabalho assinada e trabalhadores por conta própria)
Informal
Idade Em anos de idade Variável discreta
Horas de trabalho Em horas de trabalho Variável discreta
Variáveis independentes do segundo nível
Prop_Pess1hora Proporção de pessoas que realizam diariamente deslocamento casa-trabalho de 1 hora ou mais Variável contínua
Prop_PessEscSup Proporção de pessoas de 25 anos ou mais de idade com nível superior de escolaridade Variável contínua
Prop_PessPretas Proporção de pessoas de cor ou raça preta Variável contínua

A análise multinível, realizada em dois níveis hierárquicos, consiste na realização de três modelos de análise: modelo nulo (quando só se insere a variável dependente), modelo de nível 1 (quando se insere as variáveis do nível 1) e modelo de nível 2 (quando se acrescenta as variáveis do nível 2). No modelo nulo, é onde se analisa a consistência do modelo multinível, de modo a verificar se se justifica a sua realização.

A partir dos resultados obtidos no modelo nulo (quadro 2), podemos perceber que a grande média na obtenção de renda do trabalho, independente das características individuais e das condições do território, é de 6,62, apresentando resultado estatisticamente significativo. A variância tradutora das diferenças intraindividuais é de 0,38 e das diferenças entre as áreas no interior da metrópole é de 0,03, ambas sendo estatisticamente significativas, o que nos permite inspecionar a importância dos preditores tanto do primeiro quanto do segundo nível hierárquico. O coeficiente de correlação intraclasse (ICC, sigla em inglês)[1] é de 7%, o que significa que 7% das diferenças total entre os indivíduos está associado às características distintas do território. Neste caso, o modelo nulo nos aponta a pertinência de prosseguir na análise multinível.

Quadro 2: Modelo nulo: Estimativa de efeitos fixos e dos parâmetros da covariância

Estimativas de efeitos fixosa
Parâmetro Estimativas Modelo padrão df t Sig. Intervalo de confiança 95%
Limite inferior Limite superior
Ordenada na origem 6,616316 ,009440 301,678 700,866 0,000 6,597739 6,634893
Estimativas de parâmetros de covariânciaa
Parâmetro Estimativas Modelo padrão Wald Z Sig. Intervalo de confiança 95%
Limite inferior Limite superior
Resíduos Variância ,380557 ,001326 286,999 0,000 ,377967 ,383164
Ordenada na origem [assunto = V0011] ,028852 ,002449 11,779 0,000 ,024429 ,034075
a. Variável dependente: Log da renda do trabalho principal.

Todas as variáveis inseridas no nível 1 do modelo são estatisticamente significativas. Isso nos permite realizar a interpretação de seus efeitos. Como a variável dependente (rendimento do trabalho principal) foi transformada em logaritmo, podemos fazer a interpretação do efeito das variáveis preditoras em percentual. Neste caso, podemos observar que a variável escolaridade nos mostra o efeito das categorias presentes em relação à categoria de referência, que diz respeito as pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto. Assim, as pessoas que tem o fundamental completo ganham, em média, 13% mais que as pessoas classificadas na categoria de referência. Aquelas que têm o ensino médio completo ganham, em média, 29% mais que as pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto. E aquelas que têm nível superior ganham, em média, 73% a mais. Ou seja, quanto maior nível de escolaridade maior é, em média, o nível de rendimento, resultados compatíveis com fatos estilizados na produção científica sobre o assunto. Os resultados também demonstram que os homens ganham, em média, 34% mais que as mulheres; pessoas de cor branca ganham, em média, 7,3% mais que pessoas não brancas (pretas e pardas); aqueles que se encontram em relação formal de trabalho (empregado com carteira de trabalho assinada) ganham, em média, 15% mais que aqueles que estão na informalidade (conta própria e empregado sem carteira assinada); e, apesar de pequenos os efeitos da idade e da hora de trabalho semanal, essas variáveis também são estatisticamente significativas.

Quadro 3: Modelo nível 1: Estimativas de efeitos fixosa

Parâmetro Estimativas Modelo padrão df t Sig. Intervalo de confiança 95%
Limite inferior Limite superior
Ordenada na origem 5,560112 ,009678 850,115 574,503 0,000 5,541116 5,579108
Fundamental ,131697 ,003486 161291,451 37,777 0,000 ,124864 ,138530
Medio ,287764 ,003366 161503,736 85,498 0,000 ,281167 ,294360
Superior ,733059 ,010187 161511,995 71,959 0,000 ,713092 ,753026
Sexo ,347133 ,002802 161268,253 123,887 0,000 ,341641 ,352625
Cor_raça ,073762 ,002857 161443,798 25,816 0,000 ,068162 ,079362
Formal ,150088 ,002792 161361,643 53,750 0,000 ,144615 ,155561
Idade ,008136 ,000107 161437,384 75,719 0,000 ,007926 ,008347
Horas_trab ,006588 ######## 161310,039 77,126 0,000 ,006420 ,006755
a. Variável dependente: Log do rendimento do trabalho principal.

O quadro 4 apresenta o resultado do modelo multinível quando se acrescenta as variáveis de segundo nível (variáveis territoriais). Nesse modelo, podemos observar que todas as variáveis territoriais apresentam efeito significativo. Apesar de as variáveis proporção de pessoas de 25 anos e mais de idade com nível superior de escolaridade e proporção de pessoas de cor ou raça preta terem nível de significância de 1%, a variável proporção de pessoas que realizam deslocamento casa-trabalho de 1 hora ou mais diariamente ter nível de significância de 5%. Isso quer dizer as duas primeiras variáveis têm efeitos mais significativos estatisticamente que a última variável. Mas, de todo modo, todas elas podem ser consideradas para explicar diferenças de obtenção de rendimento do trabalho principal entre pessoas da classe popular.

A variável proporção de pessoas que realizam deslocamento casa-trabalho de 1 hora ou mais diariamente apresentou resultado negativo. Isso significa que há uma relação inversa entre o tempo de deslocamento casa-trabalho e o nível de rendimento obtido no mercado de trabalho. Efeito semelhante também é observado na variável proporção de pessoas de cor preta, o que demonstra que quanto maior é a proporção de pessoas de cor preta na área de ponderação menor é o nível de rendimento. Relação direta foi observada somente pela variável proporção de pessoas de 25 anos e mais de idade com nível superior de escolaridade, o que significa que quanto maior é essa proporção, maior é o nível de rendimento obtido no mercado de trabalho pela classe popular.

A partir desses resultados, na próxima seção procuraremos interpretar seus resultados, tendo em vista a contribuição das abordagens do efeito-território e considerando o modelo centro-periferia de organização social do território da metrópole do Rio de Janeiro.

Quadro 4: Modelo nível 2: Estimativas de efeitos fixosa

Parâmetro Estimativas Modelo padrão df t Sig. Intervalo de confiança 95%
Limite inferior Limite superior
Ordenada na origem 5,537586 ,021624 330,641 256,083 0,000 5,495048 5,580125
Fundamental ,131715 ,003484 161511,751 37,810 0,000 ,124887 ,138543
Médio ,287323 ,003358 160025,025 85,559 0,000 ,280741 ,293905
Superior ,727339 ,010189 161493,292 71,384 0,000 ,707369 ,747310
Sexo ,347744 ,002802 161347,113 124,120 0,000 ,342252 ,353235
Cor_raça ,072706 ,002858 161414,345 25,443 ,000 ,067105 ,078307
Formal ,149953 ,002790 161500,246 53,743 0,000 ,144484 ,155422
Idade ,008105 ,000107 161412,206 75,503 0,000 ,007895 ,008315
Horas_trab ,006575 8,534562E-05 161506,580 77,037 0,000 ,006408 ,006742
Prop_Pess1hora -,116922 ,050776 270,512 -2,303 ,022 -,216888 -,016957
Prop_PessEscSup ,569191 ,037396 346,215 15,221 ,000 ,495639 ,642744
Prop_PessPretas -,003864 ,001231 276,355 -3,140 ,002 -,006287 -,001442
a. Variável dependente: Log do rendimento do trabalho principal.

EM BUSCA DE INTERPRETAÇÃO

Vimos que o território apresenta efeito estatisticamente significativo para as três variáveis utilizadas no modelo analítico que procurou avaliar as diferenças de obtenção de renda no mercado de trabalho da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Esses resultados não corroboram a hipótese anteriormente formulada, quando se considerava que pelo fato de a análise recorrer para a classe popular, em que todos que dela fazem parte se caracterizam pela realização de trabalho manual e, portanto, com baixo capital cultural e baixo capital econômico, o território não pudesse exercer diferença no mercado de trabalho. Mas, ao contrário, em todas as variáveis analisadas o território exerceu efeito explicativo sobre as diferenças de obtenção de renda no mercado de trabalho para a classe popular. Porém, cada uma das variáveis expressam dimensões particulares do território.

A proporção de pessoas que realizam deslocamento casa-trabalho diariamente de 1 hora ou mais expressa a segmentação territorial da metrópole, considerado um mecanismo instrumental (SMALL & NEWMAN, 2001), na medida em que quanto maior a proporção de pessoas que se deslocam em tempo superior a uma hora nos informa sobre as distâncias que separam o local de moradia do local de concentração de emprego. Isso demonstra que há barreiras materiais que afetam as oportunidades de vida das pessoas, principalmente quanto à possibilidade de obtenção de melhores rendimentos no mercado de trabalho. Essas barreiras materiais, que podem ser a quantidade e qualidade dos transportes públicos, os altos preços com combustíveis de transportes particulares ou a infraestrutura viária existente na metrópole, impedem que as pessoas obtenham maiores rendimentos, contribuindo, assim, para redução de sua renda real (HARVEY, 1973). Essa redução ocorre sob diferentes aspectos, mas ao mesmo tempo complementares. A distância, ao contribuir para as pessoas obterem ocupações que remuneram menos, ainda aumenta os custos de deslocamentos, seja por meio de transporte público, seja por meio de transporte privado. Além disso, os deslocamentos de grandes distâncias realizados diariamente leva ao desgaste físico daquelas pessoas que estão sujeitas às essas condições, bloqueando as possibilidades de superação dessas condições. Ou seja, há um ciclo vicioso expresso pela segmentação do território metropolitano que impede a superação das desigualdades de obtenção de rendimento no mercado de trabalho, demonstrando que as pessoas que estão mais perto dos locais de concentração de emprego conseguem ocupação com maiores remunerações, têm menos custos de deslocamento e menos desgaste físico; ao contrário, as pessoas que estão mais distantes dos locais de concentração de emprego conseguem ocupações de menor rendimento, têm custos mais elevados de transporte e maior desgaste físico por realizarem cotidianamente longos deslocamentos.

A proporção de pessoas de 25 anos ou mais de idade com nível superior, ao ser expressão das diferenças de condições sociais do território, pode ser compreendida também como expressão da segregação territorial na metrópole, entendida pela homogeneidade internada de cada área metropolitana e heterogeneidade em relação às demais áreas (CASTELLS, 2000 [1972]). Apesar de a escolaridade de nível superior ter se ampliado no Brasil nos diversos segmentos sociais, ainda é um recurso de diferenciação social significativo, principalmente quando se filtra considerando apenas as pessoas de 25 anos ou mais de idade. Neste sentido, podemos considerar que nas áreas da metrópole onde havia uma grande concentração de pessoas com nível superior de escolaridade eram áreas que se distanciavam física e simbolicamente das áreas com pequena concentração de pessoas com nível superior de escolaridade, demonstrando que aquelas apresentam melhores condições sociais e estas as piores condições. A contradição observada é que as pessoas da classe popular que moram nas áreas de melhores condições sociais se beneficiam dessas condições. É contraditório porque as distâncias sociais observadas no espaço social podem se configurar mesmo em condições de proximidade física, como alguns trabalhos o demonstra (RIBEIRO, 2008), especialmente no caso do Rio de Janeiro, onde há a presença de favelas nas áreas mais nobres da cidade. Se essas distâncias sociais não existissem, poderíamos conjecturar sobre a existência de constituição de capital social ou de laços sociais fortes entre diferentes classes (GRANOVETTER, 1985) que contribuiriam para que a classe popular, morada das áreas de melhores condições sociais, tendo em vista a rede de relacionamentos constituída, consegue obter informações ou indicações de trabalho que permite acessar às melhores ocupações em termos de remuneração. Porém, acreditamos que ainda continua válida a explicação que aponta para distância social em contexto de proximidade física, em especial na metrópole do Rio de Janeiro. Neste sentido, cabe-nos buscar outras explicações para esses resultados.

Uma possível explicação para o fato de, em média, as pessoas da classe popular que moram nas áreas da metrópole de melhores condições sociais obterem maior remuneração no mercado de trabalho pode ter a ver com o tipo de ocupação que exercem. As áreas da metrópole caracterizadas por melhor condição social são também aquelas onde se concentram as pessoas com maior nível de renda. Isso permite que os serviços que nelas são oferecidos tenham preços mais elevados que os mesmos serviços oferecidos em áreas de condições sociais inferiores, como são o conjunto de ocupação exercido pelos chamados prestadores de serviços especializados, como cabeleireiros, cozinheiros e cuidadores de criança, e também algumas ocupações que compõem a categoria dos operários da construção civil, como eletricistas e pedreiros, que realizam trabalhos esporádicos em cada lugar onde atuam, mas cobram preços elevados. Aqueles prestadores de serviços ou operários da construção civil que moram nas mesmas áreas onde realizam seus trabalhos têm a vantagem de acessar maiores quantidades de trabalhos e, portanto, poderem obter maiores rendimento, além de se tornarem referência para sua clientela. E apenas nesse último sentido é que poderíamos falar que a proximidade física contribui para constituição de capital social, mas capital social, neste caso, entendido como a constituição de laços de relacionamentos baseado em relação de dominação e subordinação.

Podemos também considerar que a constituição de laços sociais fracos em contexto de heterogeneidade social pode contribuir para aquisição de recursos (GRANOVETTER, 1985). Isso ocorreria, intermediado pelo território, pelas oportunidades que aqueles grupos sociais ou classes que ocupam posição inferior na estrutura social obteriam em função do estabelecimento de relacionamentos com grupos sociais ou classes que estão em posições superiores da referida estrutura e com acesso ou conhecimento dos recursos existentes na metrópole. Apesar de os relacionamentos não se constituírem num tipo de interação social baseado no estabelecimento de vínculos fortes (como frequentar o mesmo bar, realizar encontros de lazer conjunto ou mesmo estabelecer relações afetivas), os recursos disponíveis de acesso e conhecimento dos grupos sociais ou classe que ocupam posições superiores da estrutura social podem ser disponibilizados para aqueles grupos ou classes de posição inferior.

A proporção de pessoas de cor ou raça preta expressa um processo de segregação racial, na medida em que quanto maior a proporção de pessoas de cor ou raça preta menor, em média, é o nível de obtenção de renda no mercado de trabalho e o contrário, quanto menor a proporção de pessoas de cor ou raça preta maior é, em média, o nível de renda. Essa segregação racial que exerce determinação no nível de renda no mercado de trabalho seria explicada por dois diferentes mecanismos atuando ao mesmo tempo. Um dos mecanismos diz respeito ao efeito discriminatório na constituição de capital social, pois as pessoas da classe popular que moram em áreas da metrópole onde há maior concentração de pessoas de cor ou raça preta teriam maior dificuldade de constituição de laços de relacionamentos que permitissem acesso a ocupações de maiores remunerações, devido à discriminação territorial exercida por meio da cor ou raça. Aliado a esse mecanismo, pode ser possível haver também outro de caráter institucional, tendo em vista que nas áreas onde se concentram as pessoas de cor ou raça preta a oferta de bens de consumo coletivo (como escolas ou centros de atendimento social, por exemplo) pode ser de pior qualidade, colaborando para reprodução das condições sociais aí existentes.

Como vimos essas três diferentes variáveis territoriais nos sugerem diferentes explicações para análise do efeito território na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Porém, qualquer que seja a variável analisada, encontramos uma configuração espacial expresso na relação centro-periferia. Ou seja, o velho padrão de configuração socioespacial das metrópoles brasileiras parece se reproduzir, mesmo com todas as mudanças que o país vivenciou nas últimas décadas, como podemos visualizar nos mapas abaixo.

A constatação desse velho padrão de organização social do território metropolitano por meio do efeito território sobre as oportunidades no mercado de trabalho nos indaga no sentido de buscar interpretar o seu significado. Isso porque durante o período de intensa urbanização brasileira e de constituição dos principais centros urbanos buscava-se no processo de desenvolvimento econômico, dinamizado pela industrialização, no intenso processo de migração do campo para a cidade, das migrações inter-regionais e nos mecanismos de acumulação urbana, principalmente, a explicação para constituição das periferias urbanas como o lugar de concentração das camadas sociais de menor poder aquisitivo e como o lugar da precariedade das condições urbanas de vida (SINGER, 2012; OLIVEIRA, 1982; KOWARICK, 1993; VETTER et. al, 1981). O que estamos vendo agora é que, em momento de arrefecimento do processo de urbanização brasileira, a periferia metropolitana continua se apresentando em desvantagem para as oportunidades no mercado de trabalho.

Ao considerar a perspectiva de Castells (2000 [1972]) e Gottdiener (2010), que o espaço (e o espaço urbano) é produto e componente da estrutura social, a configuração socioespacial urbana só pode ser entendida na relação dialética com as demais instâncias da estrutura social: a econômica, a política institucional e a ideológica. Do ponto de vista da instância econômica, podemos considerar que o espaço urbano continua sendo um valor de uso complexo que se apresenta como força produtiva para a acumulação capitalista em suas várias esferas produtivas (HARVEY, 1973), ao mesmo tempo é objeto de acumulação para aquelas esferas produtoras do espaço urbano (TOPALOV, 1978). Tanto como força produtiva, quanto como objeto de acumulação, o produto urbano se constitui sob condições contraditórias que são próprias do capitalismo, por isso mesmo é que se constitui de modo desigual, mas combinado, engendrando espaços onde se concentram as melhores condições de vida e espaços de condições precárias de sobrevivência, mas, ao mesmo tempo, tanto num lugar como noutro, como lugar do consumo de bens coletivos, espaços necessários à reprodução social de modo a assegurar a reprodução do capital: por isso mesmo, se faz de modo desigual e combinado.

A instância político-institucional deve ser pensada no que se refere à gestão que é realizada sobre o espaço urbano, mas que deve ser compreendida na relação com a instância econômica. Neste sentido, sendo o espaço urbano o lugar da reprodução do capital, a sua gestão é realizada a favorecer as condições necessárias para que aquela reprodução ocorra. Assim, tanto os mecanismos de regulamentação institucional quanto as políticas urbanas têm como prerrogativa assegurar a reprodução do capital. Para tanto, a gestão do espaço urbano deve contribuir para que sejam viabilizadas no plano da cidade as condições de realização do capital e, para que isso ocorra, devem ser asseguradas as condições de reprodução social dos trabalhadores, ao mesmo tempo essa reprodução deve contribuir para que sua posição nas relações sociais aí constituídas não sejam alteradas, o que é garantido pelo controle social realizado por meio tanto dos mecanismos de regulamentação urbana quanto das políticas urbanas propriamente ditas.

Apesar da importância que tem as instâncias econômicas e político institucionais para compreensão do espaço urbano, seja como produto seja como componente da estrutura social nos interessa, de modo especial, tratar da instância ideológica para nos aproximar de uma interpretação da continuação histórica desse modelo de organização social do território metropolitano expresso na relação centro-periferia, mesmo que mudanças espaciais tenham ocorrido nessas últimas décadas no sentido de melhorar o padrão de vida urbano nos espaços denominado de periferia. Isso porque essa instância da estrutura social refere-se à dimensão produtora dos mecanismos simbólicos de reconhecimento do modo como se apresenta a configuração socioespacial. Esses mecanismos simbólicos precisam ser articulados a partir de uma compreensão dos tipos de capitais (ou esferas produtivas) que estão presente na cidade, tendo em vista que na divisão socioespacial do trabalho mais geral, cada cidade ou metrópole tende a apresentar características diferentes umas das outras. Assim, ao considerar que na metrópole do Rio de Janeiro o capital mercantil (comercial, construtor, imobiliário etc.) sempre foi o capital hegemônico, nos leva a refletir que é sob a lógica dos interesses particulares desse tipo de capital que podemos compreender e justificar o modo como a configuração socioespacial centro-periferia se apresenta. Mas, ao mesmo tempo, é necessário articular com a instância político institucional, no sentido de entender o porquê de o Estado agir de modo diferenciado dentro do espaço urbano, favorecendo os grupos sociais ou camadas sociais que ocupam posição mais elevadas na estrutura social em detrimento dos grupos sociais que estão em posições mais baixas na referida estrutura, o que justifica o fato de em determinadas áreas da cidade, por ser o lugar da classe superior e da classe média serem providas dos recursos coletivos necessário para a vida urbana, ao passo de os lugares de concentração da classe popular esses recursos não serem completamente assegurados (VETTER et. al, 1981).

Como corolário, a continuação da existência da configuração socioespacial de centro-periferia na metrópole do Rio de Janeiro decorre do modo como se articulam o poder público e as frações hegemônicas dos capitais que utilizam do espaço urbano para se realizar e se reproduzir, ao mesmo tempo em que isso justifica que a ação do poder público seja diferenciada no interior da metrópole, ocorrendo de modo desigual, o que passa a ser aceito por toda coletividade, mesmo havendo processos de resistência, num processo em que os grupos sociais se diferenciam e se distanciam espacialmente, ao mesmo tempo que se diferenciam e se distanciam socialmente, configurando o espaço metropolitano como desigual, mas combinado, expresso na relação centro-periferia. E, como vimos, essa forma de configuração socioespacial contribui para as desigualdades de oportunidades dos indivíduos e, portanto, coloca-se como barreira à constituição de uma cidade (metrópole) socialmente justa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho procurou analisar as desigualdades de oportunidades da classe popular na obtenção de renda no mercado de trabalho na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Partimos da hipótese que essas desigualdades de oportunidades não seriam explicadas pelo efeito-território, tendo em vista que a classe popular, também considerada como os trabalhadores manuais urbanos, constitui-se como um grupo social com baixo capital econômico e baixo capital cultural, demonstrando baixo volume de capital global e, portanto, em condições de relativa homogeneidade social, o que explicaria o modo de sua inserção no mercado de trabalho. No entanto, os resultados encontrados demonstraram que, mesmo sendo considerada apenas a classe popular, o território exerce efeito explicativo nas diferenças de obtenção de renda no mercado de trabalho.

Esse efeito-território foi operacionalizado de três maneiras: a proporção de pessoas que realizam deslocamento casa-trabalho diariamente de 1 hora ou mais por dia; a proporção de pessoas de 25 anos e mais de idade com nível superior de escolaridade; a proporção de pessoas de cor ou raça preta. Para separar os efeitos territoriais, propriamente ditos, dos efeitos referentes aos indivíduos, neste trabalho realizamos a análise empírica por meio da regressão multinível, utilizando os dados do Censo Demográfico do IBGE, de 2010, que disponibilizando as informações dos indivíduos para cada área de ponderação (num total de 338 áreas) permitiu a utilização dessa técnica de pesquisa.

Vale ressaltar que no Brasil, em especial no campo dos estudos urbanos, a utilização de análise multinível ainda é pouca disseminada. Neste sentido, este trabalho constitui-se como um dos pioneiros nesse campo pela utilização desse tipo de técnica, nos permitindo a obtenção de resultados mais consistentes e acurados do fenômeno social que nos propusemos analisar. De todo modo, inclusive por esse caráter pioneiro, fica como desafio a continuidade e desdobramento desse tipo de técnica, especialmente porque há poucos analistas ou especialistas urbanos que se podem trocar experiências e fazer o conhecimento metodológico avançar.

O efeito-território encontrado pelas diferentes variáveis utilizadas foi interpretado por meio do que cada uma delas significa. Neste sentido, pudemos ver que há mecanismos distintos do território que exerce explicação sobre as oportunidades da classe popular no mercado de trabalho. Um dos mecanismos decorre da segmentação territorial, que pode ser considerado como um mecanismo instrumental segundo Small & Newman (2001), tendo em vista que a distância dos lugares de concentração de emprego contribui para obtenção de menor nível de rendimento, ao mesmo tempo em que leva a redução da renda real dos indivíduos (HARVEY, 1973). Também observamos outro mecanismo instrumental, mas que expressa a própria segregação socioespacial no território metropolitano (concentração de pessoas de nível superior de escolaridade), que nos levar a considerar em situação de heterogeneidade social a constituição de laços fracos podem ser mais frutíferos na obtenção de recursos e, portanto, de renda que em situação de homogeneidade social e a existência de laços fortes (GRANOVETTER, 1985). Por fim, vimos também que há mecanismo de discriminação territorial, tendo em vista que as pessoas que moram em áreas de maior concentração de indivíduos de cor ou raça preta têm desvantagem na obtenção de renda no mercado de trabalho.

Todos esses mecanismos operam a partir do modo como se manifesta a organização social do território da metrópole do Rio de Janeiro, tendo em vista que os lugares de maiores desvantagens são os lugares da periferia metropolitana e os lugares de maiores vantagens são os lugares do centro metropolitano, o que nos levou a considerar a continuidade da importância que ainda exerce o modelo centro-periferia como explicação da configuração socioespacial dessa metrópole. E para compreender o seu significado recorremos novamente às explicações da sociologia urbana marxista (CASTELLS, 2000 [1972]; TOPALOV, 1978), que considera o território como produto e, ao mesmo tempo, componente da estrutura social. Neste sentido, é pela articulação dialética com as demais instâncias da estrutura social que podemos compreender sua configuração socioespacial.

 

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[1] Normalmente se considera ICC igual ou superior a 5% para se prosseguir na análise multinível.

 

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