O Brasil que pedala – A cultura da Bicicleta nas cidades pequenas

 

A Parceria Editorial A Bicicleta no Brasil acaba de lançar o livro “O Brasil que pedala. A cultura da bicicleta nas pequenas cidades”, com diversos artigos redigidos por ativistas e pesquisadores sobre o uso da bicicleta em diferentes pequenas cidades do interior do Brasil. A Parceria é composta pela Aliança Bike – uma associação de empresas do setor de bicicletas -, Bicicleta para Todos, União de Ciclistas do Brasil e Bike Anjo.

A elaboração do livro, organizado por André Soares e Daniel Guth, começou ainda em 2015, com a seleção das cidades. Após uma consulta prévia, 150 cidade do Brasil foram contadas através do poder público municipal. A partir do interesse demonstrado e a qualidade das respostas enviadas pelas prefeituras, onze cidades foram selecionadas, duas de cada região do país, além de Afuá, cidade paraense localizada na Ilha do Marajó, um estudo de caso especial.

O texto sobre cada cidade foi subsidiado por informações e dados estatísticos obtidos através de: levantamento socioeconômico, levantamento fotográfico, entrevistas com moradores, contagem volumétrica de veículos, caracterização de ciclistas e a pesquisa Perfil do Ciclista Brasileiro – uma parceria entre a ONG Transporte Ativo, o Laboratório de Mobilidade Sustentável – LABMOB/UFRJ e o Observatório das Metrópoles.

Lançamento sobre as águas

No início de fevereiro, o livro foi lançado na cidade de Afuá, no Pará. Na oportunidade também foi exibido o documentário “Elo Perdido – O Brasil que Pedala”, dirigido por Renata Falzoni, que retrata lugares do Brasil onde a cultura da bicicleta resiste. Afuá, sem dúvida, é um dos principais personagens do filme. Localizado na Ilha de Marajó, o município proíbe a circulação de automóveis, motos ou qualquer outro tipo de motor que faça andar sobre a terra. Trata-se de um lugar onde irmãos de 8 anos de idade levam irmãos menores na garupa da bicicleta e onde sinais e códigos de trânsito são negociados entre as pessoas. Afuá experimenta, na prática, tudo o que se estuda sobre os benefícios da bicicleta para as cidades.

Segundo Juciano Rodrigues, pesquisador do Observatório das Metrópoles e um dos autores do capítulo sobre Afuá, a cidade paraense localizada próximo à foz do Rio Amazonas, nunca se deu bem com os veículos motorizados. Por ser uma cidade suspensa e construída sobre palafitas, a circulação de automóveis e motocicletas não é permitida desde o início dos anos 2000. Rodrigues lembra que todos os deslocamentos são feitos a pé ou de bicicleta e, por essa razão, Afuá é a cidade brasileira com a mais baixa taxa de motorização do país. Para ele, a total humanização de suas ruas se reflete positivamente nos indicadores de saúde urbana e violência no trânsito.

Livro revela a diversidade e o perfil de ciclistas

Há diversos pontos curiosos apresentados em cada eixo do livro, que começa com um cordel dedicado especialmente para a publicação. J. Ribamar dos Santos, o autor, que também é ciclista, vive em Gurupi (TO), uma das cidades retratadas. Um número expressivo de mulheres e crianças pedalam nestas cidades: em Ilha Solteira (SP), por exemplo, a presença feminina representa mais de 40% do total de ciclistas; já em Pomerode (SC) realiza-se anualmente a Copa Hans Fischer de ciclismo para homenagear seu grande herói esportivo, atleta que representou o país em duas edições dos Jogos Olímpicos.

Os resultados da pesquisa de perfil a partir das 2.208 entrevistas realizadas nas 11 cidades revelam o caráter inclusivo e humanitário da bicicleta. Praticamente dois terços dos ciclistas, nesta amostra de cidades pequenas, recebem entre zero e dois salários mínimos mensais.

Em Mambaí (GO), 40% declaram não ter renda alguma. Pardos e negros somam 64,6% dos ciclistas nessas cidades; brancos são 31,67%. Comparando com o Censo 2010, há nesses municípios três vezes mais autodeclarantes como negros entre os ciclistas do que em relação a toda a população. Tamandaré (PE), por exemplo, tem 20% de ciclistas autodeclarados negros, enquanto na cidade o índice corresponde a 5,13%. Retratar a cultura da bicicleta em todos os biomas brasileiros e mostrar que ela se adapta a qualquer tipo de terreno e condições sociais também foi um desafio contemplado em O Brasil que pedala.

Cidades como Tarauacá (AC) no meio da Floresta Amazônica com 73% de viagens feitas apenas de bicicleta, Tamandaré (PE), no litoral, e Cáceres (MT), no Pantanal matogrossense, estão mapeadas. Mambaí (GO), Antonina (PR), Pedro Leopoldo (MG) e São Fidélis (RJ) completam as 11 cidades pesquisadas.

As curtas e plenamente acessíveis distâncias são um ponto em comum entre as cidades. Para 63,6% dos entrevistados as viagens não superam 20 minutos de pedalada. Em Afuá (PA), 84% das viagens não superam 14 minutos e, em Tamandaré (PE), 51% não superam 15 minutos de pedalada. A pesquisa de perfil, que entrevistou 2.208 ciclistas, revela que mais de um terço (34,3%) deles começou a pedalar porque a bicicleta “é mais rápida e prática”. Para 27,3%, o motivo principal é a economia deste meio de transporte. Para outros 22% dos ciclistas, o principal motivo é a saúde.

Efeitos da motorização

Os números revelados nas pesquisas, no entanto, dão um gosto amargo no relato do cotidiano dessas cidades. Fica claro o efeito pernicioso de políticas públicas, que há décadas estimulam o aumento da presença de motores sobre duas ou quatro rodas nas ruas desses municípios –  seja por meio de desoneração, linhas de crédito, subsídios aos combustíveis e obras viárias. O Brasil que pedala chama a atenção para o aumento de motocicletas e motonetas: do total de emplacamentos destes veículos feitos entre 2001 e 2014, mais de 70% deles foram em municípios de pequeno porte. As regiões Norte e Nordeste viram a frota de motocicletas crescer 641% e 639%, respectivamente nesse período. O livro é um alerta, mas também uma homenagem à cultura da bicicleta, que segue resiliente país afora.

O livro O Brasil que pedala pode ser adquirido no site da Editora Jaguatirica 

O filme o Elo Perdido – O Brasil que Pedala, pode ser assistido através da plataforma Video Camp. Assista o trailer.

Confira também a vídeo reportagem sobre a exibição do filme em Afuá realizada por Renatal Falzoni e Murilo Azevedo no canal Bike é Legal: NOSSO FILME EM AFUÁ, A CIDADE ONDE O CARRO É PROIBIDO.

 

 

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