Nordeste, a vida depois das enchentes

Quase um mês se passou desde que fortes chuvas devastaram vários municípios de Pernambuco e Alagoas. O restante do Brasil viu pela televisão imagens de destruição e perdas pessoais e coletivas. Mais uma vez, a mobilização solidária aconteceu, e mais uma vez ela se mostra insuficiente quando não é acompanhada de uma séria estrutura da parte do Estado.
Erros e ausências de agora se somam a omissões do passado num caldo que resulta na legião de desabrigados e no desaparecimento de centenas de moradias e estruturas como pontes e estradas. Aqui, Marli Gondim, educadora da Fase Pernambuco, oferece um breve relato de como está a situação das áreas atingidas em seu estado semanas após a tragédia.

Estrutura, moradia e condições de vida – A primeira impressão que se tem ao ver fotos e ouvir relatos é que toda a população das cidades foi atingida de uma forma ou de outra. As pessoas continuam abaladas emocionalmente, sem trabalho, sem casa, sem móveis, sem roupas, sem documentos, nada. Sobraram as vidas a se recompor lentamente, muito lentamente, pois é assim que os poderes público local e estadual estão caminhando. Quem não teve sua casa derrubada está abrigando familiares e amigos em suas casas. As notícias dão conta de que as comunidades rurais foram atingidas pela catástrofe de forma um pouco diferente em relação às cidades. As doações demoram a chegar e quando chegam são em quantidade insuficiente.

Um grave problema é o isolamento das comunidades por conta da queda de pontes. As pessoas têm que se deslocar em embarcações precárias, com risco de vida. Uma agricultora relatou que uma jangada afundou ao atravessar o rio Una, com 15 pessoas e suas cestas básicas, no assentamento São João da Prata, em Palmares. Nesta comunidade, caíram 20 casas e outras 52 estão sem condições de habitação. Durante quase 20 dias a comunidade ficou sem energia elétrica, o que inviabilizou o funcionamento de uma casa de farinha. O Engenho União, comunidade na qual a FASE atua há quase 10 anos, teve quatro casas destruídas, e também lá eles perderam a ponte que ligava a comunidade à estrada principal, tendo também que fazer o deslocamento por jangadas simples, operadas pelos moradores que andam a cobrar R$ 1 cada travessia. Ou então utilizam uma estrada longa e destruída pelas chuvas, para poder ter acesso a uma das pontes que não caiu.

Saúde pública – A população já convive com a precarização dos serviços de saúde e educação, mas com as enchentes isto se agravou. Segundo informações de uma companheira da Associação de Mulheres de Água Preta, município vizinho de Palmares, há apenas dois médicos para assistir toda a população. Desde o início das enchentes, não chegou o medicamento para leptospirose. Foram atendidas na unidade de saúde, desde a cheia até o dia 9 de julho, 5.318 pessoas. Três morreram com suspeita de leptospirose e há ainda 16 pessoas com suspeita da mesma doença. Nos abrigos, há pessoas com tuberculose. Na semana passada, a empresa contratada para retirar o lixo em Água Preta se viu diante de um problema: o lugar escolhido como destino do lixo é o mesmo onde também se pensa em armar as barracas que chegaram com ajuda humanitária. A solução pensada foi enviar o lixo para Palmares, o que causa mais problemas. Em todos os municípios, a distribuição das cestas básicas é precária e não atinge toda a população, assim como a distribuição de roupas, água, material de limpeza e de higiene pessoal. Nos centros das cidades, há ainda muitas pessoas sem receber cestas básicas, roupas, colchões etc. E a situação nos abrigos é precária, já que a limpeza é irregular e sem muito material para realizá-la, e uma superlotação. Em Água Preta são14 abrigos, 278 famílias e 1.213 pessoas.

Agricultura, trabalho e renda – As perdas na agricultura ainda não foram estimadas, mas os agricultores e agricultoras com quem temos contato tiveram suas áreas de plantio destruídas. Isto significa que uma boa parte da população rural está sem renda, sem poder adquirir alimentos e outros produtos, ficando totalmente à mercê das ajudas humanitárias.

Educação – As escolas, tanto na área rural quanto no espaço urbano, também não funcionam. A previsão de volta às aulas em agosto parece irreal diante do caos em que ainda se encontram as cidades. Além disso há um fato ignorado: muitos professores e professoras também foram atingidos diretamente pelas enchentes, e também estão reconstituindo suas vidas. Também estão impossibilitados de voltarem às salas de aula.

Doações – O cadastramento das famílias está sendo feito de forma muito irregular. Há relatos de pessoas que já fizeram dois cadastros e não receberam cestas básicas e outras ajudas. No dia 7 de julho, houve uma reunião do comitê das entidades associadas da ABONG (Associação Brasileira da ONGs) com os centros e associações de mulheres da Zona da Mata Sul, no município de Joaquim Nabuco, na sede do Centro de Mulheres de Joaquim Nabuco. Estavam presentes 35 pessoas, entre representantes das ONGs, dos Centros de Mulheres e de agricultores e agricultgoras diretamente atingidos. Relatos das mulheres dão conta de que as doações estão se acumulando numa universidade em Palmares, mas a logística de distribuição é precária e acaba privilegiando os conhecidos, amigos de quem está diretamente responsável por esta tarefa. Notícia recente sobre Palmares dá conta de que a distribuição de cestas básicas está parada desde a semana retrasada, só chegando às comunidades rurais, roupas, muitas roupas.

Meio ambiente – A Fase está desenvolvendo um projeto de pesquisa sobre o programa de ATES – Assistência Técnica Social e Ambiental, operada pelo INCRA e Instituto de terras de Pernambuco, em parceria com o Centro Sabiá, em cinco assentamentos da região, entre eles o assentamento São João da Prata, diretamente atingido pelas enchentes. O outro projeto é de recuperação de nascentes de rios, no Engenho Riachuelo, em Palmares, que encontra-se hoje isolado também pela queda de uma ponte, mas não diretamente atingido pelas águas. Ambos os projetos, embora de âmbito localizado, colaboram com a preservação ambiental e reforçam a necessidade de políticas públicas para tal. A preservação das nascentes prevê a instalação de viveiros de mudas para não só proteger as nascentes, mas também para recompor áreas de plantio, ampliando a biodiversidade. Projetos como estes, de agroecologia, que criam formas alternativas ao modelo monocultor, concentrador de terras e de destruição da biodiversidade da Mata Atlântica, se tiverem sua escala ampliada nos municípios por meio de políticas públicas, certamente minimizam os efeitos das enchentes. Não só pelas ações de caráter prático, mas também problematizando a questão da preservação ambiental, das matas, dos rios, geração de renda e das responsabilidades do Estado.

Catástrofe anunciada – Há exatamente dez anos, uma enchente de proporções bem menores atingiu estes mesmos municípios. Muitas ações dos governos foram cobradas pelas organizações da sociedade civil em audiências públicas. O governo estadual prometeu em 2006, em campanha, a construção de quatro barragens na região da Zona da Mata e não as fez. Há um aprendizado por parte da sociedade civil quanto ao poder de enfretamento dessas questões, mas este aprendizado deve ser acumulado também pelos governos que se sucedem. Caso contrário, a população se deparará não com soluções, mas com novas catástrofes anunciadas.

Fonte: Fase
 

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