Modelo latino-americano de cidade ou metrópole?

Crédito: Site Destinos/Reprodução

A partir da indagação sobre o que se pode entender por cidade neoliberal na América Latina nos anos 1990, Hélène Rivière d’Arc apresenta algumas reflexões sobre eventos que pontuaram a história das cidades, identificando quais são as categorias do passado que esclarecem as atualmente em uso nas investigações e, principalmente, as referentes aos sistemas que organizam um domínio particular: a metrópole na América Latina.

Como em qualquer parte, a cidade neoliberal é a cidade financeirizada, onde a construção sob todas as suas formas, em todo o território urbano que faz agora parte dos ativos bancários, conduz à privatização dos antigos serviços e à difusão de novos serviços quase exclusivamente privados. Esta definição abarca praticamente todas as cidades da América Latina, grandes e médias, e até mesmo cidades tão diversas quanto São Paulo e Tegucigalpa.

O texto destaca seis paradigmas de análise, orientadores de importantes trabalhos de pesquisa sobre o processo de urbanização latino-americano, permitindo analisar a simultaneidade e a similaridade desse processo em diferentes países e em diferentes períodos de tempo.

O artigo “Pode-se falar, nestes anos 2000, de um modelo latino-americano de cidade ou metrópole? Ponto de vista de uma europeia”, de Hélène Rivière d’Arc, é um dos destaques do Dossiê “Teoria urbana e cidade neoliberal na América Latina”, da Revista Cadernos Metrópole nº 31.

 

INTRODUÇÃO

Inicialmente, levanto a hipótese de um modelo de cidade que circula na América Latina, atribuindo à noção de modelo o sentido dado pelos economistas quando procuram saber qual é o elemento estruturador de um sistema e as causas da reprodução ou não desse último. Porém, tomo a escala espacial da cidade como substrato do modelo e não a escala nacional.

Do ponto de vista metodológico, contudo, a corroboração dessa hipótese pressupõe algumas questões prévias. Devemos pensar qual é o interesse de recorrer à noção de modelo. De fato, essa última permite fugir ao contexto hegemônico de mundialização para explicar um processo, pois o reconhecimento de um “modelo” permite por sua vez antecipar o futuro e as possibilidades.

Saskia Sassen acredita poder reconhecer um modelo universal da cidade global, que se diferenciaria apenas por ser – em muitos casos – truncado. Assim, esse modelo nada mais seria do que um retorno à hegemonia exercidapor algumas cidades e pelas redes de todos os tipos, que exercem seus poderes virtuais a partir dessas cidades. Para um especialista, esseprocedimento pode ser satisfatório. Para um pesquisador em ciências sociais e econômicas, ele me parece restritivo, na medida em que o pesquisador considera que o tempo (político, histórico…) é uma contingência das hipóteses que ele levanta. Com efeito, propor a existência de um modelo de cidade latino-americana (ou mesmo europeia) talvez se deva ao fato de a primeira década de 2000 ter vivido, aqui e lá, momentos políticos e econômicos muito diferentes.

A década de 1990, que presenciou a liberalização e política desenfreadas, privatizações, abertura ao intercâmbio comercial, culturale intelectual, foram anos dourados paraas redes de especialistas. Essas redes fizeramcircular suas definições dos riscos e suas receitas em todos os continentes. Alguns pesquisadores denunciaram, então, uma “despolitização” das questões sociais e econômicas, criticando indiretamente os especialistas por dissipar as contradições não resolvidas, unicamente com base em sua credibilidade técnica.Em conclusão, isso remeteria o conceito de territóriourbano apenas à sua materialidade física.

Outros ressaltaram a complexidade e a dificuldade que representa para as populações urbanas, principais vítimas desses riscos de todos os tipos, enfrentar a inflação das medidas burocráticas e/ou jurídicas, inspiradas nas recomendações e receitas neoliberais. Mas pode-se dizer também que, no outro extremo, o trabalho dos pesquisadores, baseado nessas contingências do tempo e da história, pode por vezes aparecer com uma negação de todo impacto de um pensamento ou de uma ação reformadora, seja ela qual for. Existe aí um dilema, mas acredito que a evolução política dos anos 2000, cujos traços marcantes são a aspiração às refundações nacionais na América Latina e à profundidade da crise na Europa (e também nos Estados Unidos), pode contribuir para mudar as modalidades dessas circulações temáticas sobre a cidade.

Nesse contexto dos anos 1990, o que foi então entendido como cidade neoliberal na América Latina? Como em qualquer parte, mas talvez mais ainda que em outros lugares, trata-se da cidade financeirizada, onde a construção sob todas as suas formas, em todo o território urbano que faz agora parte dos ativos bancários,levam, por sua vez, a uma privatizaçãodos antigos serviços e à difusão de novos serviços quase exclusivamente privados. Essa definição abarca praticamente todas as cidades da América Latina, grandes e médias, e até mesmo cidades tão diferentes quanto São Paulo e Tegucigalpa.

Investigar sobre os eventos que pontuaram a história das cidades permite identificar quais são as categorias do passado que esclarecem as que estão atualmente em uso e sobre os sistemas que organizam um domínio particular: nesse caso, a metrópole na América Latina.

 

Para ler o artigo completo “Pode-se falar, nestes anos 2000, de um modelo latino-americano de cidade ou metrópole? Ponto de vista de uma europeia”, acesse a Revista Cadernos Metrópole nº 31.

 

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