Megaeventos no Brasil: falta de transparência e reduzida participação social

Megaeventos no Brasil: falta de transparência e reduzida participação social

O Observatório das Metrópoles apresentou, no período de 10 a 12 de dezembro no Rio de Janeiro, os principais resultados do projeto “Metropolização e Megaeventos: os impactos da Copa do Mundo e das Olimpíadas nas Metrópoles Brasileiras”. Reunindo pesquisadores de várias partes do país e mais convidados como Juca Kfouri, Ana Luiz Silva (Instituto Ethos), Raquel Rolnik e John Horne, o instituto buscou debater o legado efetivo que se tem construído com os megaeventos esportivos. A conclusão é que em oposição a um projeto de cidade mais igual e democrática, verifica-se um processo com pouca transparência, reduzida participação social e projetos voltados, em sua maioria, para o capital e o mercado.

Juca Kfouri, Chris Gaffney e Paulo Soares

O Seminário Nacional “Metropolização e Megaeventos: os impactos da Copa do Mundo e das Olimpíadas nas Metrópoles Brasileiras” foi realizado no Clube de Engenharia, no Centro do Rio de Janeiro, reunindo pesquisadores de várias partes do país interessados no tema. Participaram do evento representantes da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa, e mais representantes dos Comitês Populares de Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, dentre outros estados.

Um dos destaques do primeiro dia do evento foi a Mesa “Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil: futebol, esportes e negócios”, que contou com a participação do jornalista Juca Kfuri, do professor Chris Gaffney (UFF) e Paulo Roberto Soares (UFRGS). Durante a sua apresentação, Kfouri comentou sobre o projeto Copa no Brasil e a construção de vários elefantes brancos. “Eu acho que o Brasil pode fazer uma Copa do Mundo, sim. Já fez em 1950 e pode fazer de novo. Fazer a Copa do Mundo do Brasil no Brasil. E não a Copa da Alemanha no Brasil. O que significa isso? Significa que não podemos fazer 12 arenas, ou melhor, vários elefantes brancos. Porque, por exemplo, em Cuiabá não existe sequer futebol profissional. Em Natal, o estádio vai se chamar Dunas – e deve servir ao turismo, acredito. No Recife, cidade que já tem três estádios dos seus grandes clubes, agora vai construir mais um no brejo. Em Brasília, será construído um estádio para 70 mil pessoas, para os jogos do Brasiliense contra o Gama”, ironizou.

Juca Kfouri afirmou ainda que o maior absurdo em relação a estádios é a construção do Itaquerão, na zona Oeste de São Paulo. “Na capital paulista existe um estádio que há 50 anos vem recebendo jogos internacionais da Fifa – da seleção brasileira, da Libertadores, do primeiro Mundial da Fifa –, chamado Estádio do Morumbi. Quer dizer, então, que o Morumbi não serve para receber cinco ou seis jogos durante um mês de evento. Alguém pode me dizer o que isso significa?”, disse e completou: “Podem perguntar se considero o Estádio do Morumbi ideal para receber os jogos da Copa? Ideal não considero, mas ideal deve ser o aeroporto, o sistema hospitalar, o sistema de transportes, as vias de acesso, a rede hoteleira, para que a cidade se prepare na sua infraestrutura para o evento e que, depois, tenhamos algo efetivo para a população. Mas não, vamos construir 12 estádios!”.

Já o professor Chris Gaffney abordou a falta de um legado efetivo em relação ao Esporte, já que o poder público tem investido na construção de estádios, mas não na produção de equipamentos esportivos para a população. Gaffney também apresentou o trabalho que vem fazendo em seu blog “hunting white elephants / caçando elefantes brancos”, sobretudo no ampliação do diálogo com a comunidade internacional interessada pelas transformações das cidades brasileiras com o advento dos megaeventos. Ao longo dos últimos dois anos, o professor forneceu suas informações sobre os megaeventos no Brasil para vários veículos da imprensa internacional, de países como EUA, França, Alemanha, Inglaterra, entre outros.

Megaeventos e Moradia

Já a Mesa “Políticas de Moradia: Entre o direito e a violação dos direitos humanos” contou com a participação dos pesquisadores Demian Castro e Ana Maria Ramalho (UFPE), e Jorge Santos de Oliveira, morador da Vila Recreio II, que contou sobre o processo de remoção que viveu em ação da Secretaria de Habitação do município do Rio de Janeiro. A família de Jorge faz parte das cerca de 3 mil que já foram removidas na cidade, sendo que outras 8 mil estão ameaçadas.

Demian Castro e Jorge Santos de Oliveira

De acordo com Demian Castro estão em curso transformações profundas na dinâmica urbana do Rio de Janeiro no contexto dos preparativos para a Copa e Olimpíadas, envolvendo, de um lado, novos processos de elitização e mercantilização, e de outro, novos padrões de relação entre o Estado e os agentes econômicos e sociais.  “O resultado desse processo tem sido violações dos direitos humanos, relativos ao direito de moradia por exemplo, e a construção de um legado de mais desigualdade.

Para mais informações, acesso o Dossiê “Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos no Rio”.

 

Megaeventos e a construção da cidade-negócio

O dia 12 de dezembro começou com a Mesa “Os Megaeventos na Trajetória Espaço-Temporal das Metrópoles Brasileiras: global, local, passado, presente e futuro”, que contou com a participação do coordenador nacional do Observatório das Metrópoles, Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, Carlos Vainer (Ettern/IPPUR/UFRJ), Cláudia Favaro (ANCOP) e Raquel Rolnik (FAU/USP).

Luiz Cesar Ribeiro, Orlando dos Santos Jr, Raquel Rolnik

Luiz Cesar abordou o tema dos megaeventos no contexto da globalização, mostrando que a globalização se caracteriza como um processo de reterritorialização tanto socioeconômico como político-institucional que se desdobra simultaneamente sobre múltiplas escalas geográficas sobrepostas. “Estas considerações nos levam a propor que examinemos os megaeventos como fatos econômicos, políticos, sociais, culturais e espaciais que se inscrevem em uma trajetória espaço-temporal da cidade. O desafio é analisar não as mudanças presentes e materiais, mas responder a seguinte pergunta: em que medida estes acontecimentos influenciam na trajetória histórica da cidade?”, explica.

Segundo Ribeiro, a cidade do Rio de Janeiro tem buscado há alguns anos legitimar um projeto urbano de desenvolvimento baseado no modelo de governança urbana empreendedora, e voltado para a competitividade da cidade. “É nesse contexto que se inscreve os megaeventos esportivos; eles têm sido usados para implementar esse modelo com foco na transformação do Rio de Janeiro em uma cidade-negócio (global city). O resultado desse processo, de acordo com Ribeiro citando David Harvey, é o ‘desenvolvimento desigual do capitalismo’”.

DIFUSÃO

Parte dos trabalhos apresentados durante o Seminário “Metropolização e Megaeventos: os impactos da Copa do Mundo e das Olimpíadas nas Metrópoles Brasileiras” está disponível para download. Veja abaixo os links dentro da programação geral.

PROGRAMAÇÃO

Dia 10 de dezembro de 2013

Abertura – 9h00 às 9h15

Parte 1 – Leituras Temáticas

Mesa 1 – 9h15 às 11h00 – Impactos Econômicos dos Megaeventos: Investimentos Públicos, Participação Privada e incertezas

Orlando Alves dos Santos Junior – IPPUR/UFRJ, Coordenador Nacional da Pesquisa

Clarissa Gagliardi – USP, Coordenadora da Pesquisa em São Paulo

Luiz Mario Behnken – Instituto Mais Democracia

 

Mesa 2 – 11h00 às 13h00 – Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil: futebol, esportes e negócios

Christopher Gaffney – Escola de Arquitetura e Urbanismo / UFF

Paulo Roberto R. Soares – UFRGS, Coordenador da pesquisa em Porto Alegre

Juca Kfuri – jornalista esportivo

 

Intervalo para o almoço – 13h00 às 14h00

 

Mesa 3 – 14h00 às 15h30 – Políticas de Moradia: Entre o direito e a violação dos direitos humanos

Demian Castro – Observatório das Metrópoles

Ana Maria Filgueira Ramalho – UFPE, Coordenadora da Pesquisa em Recife

Jorge Santos de Oliveira – morador da Vila Recreio II

 

Intervalo para o café – 15h30 às 16h00

 

Mesa 4 – 16h00 às 18h00 – Política de mobilidade urbana: integração ou segregação social?

Juciano Rodrigues – IPPUR/UFRJ – Observatório das Metrópoles

Renata Florentino – Núcleo Observatório das Metrópoles de Brasília

 

Dia 11 de dezembro de 2013

Mesa 5 – 9h00 às 11h00 – Conflitos Urbanos, Manifestações Populares e Controle da Ordem Pública

Christopher Gaffney – UFF – Observatório das Metrópoles

Representante do MPL – Movimento Passe Livre (convidado a confirmar)

Marcelo Edmundo – Comitê Popular Rio de Janeiro, Central de Movimentos Populares

 

Mesa 6 – Mesa 5 –11h00 às 13h00 – Governança Metropolitana e Megaeventos: democracia ou exceção?

Erick Omena – Doutorando em Planejamento Urbano da Oxfrod Brookes University e pesquisador do Observatório das Metrópoles

Luana Xavier Pinto Coelho – Representante do FNRU – Fórum Nacional de Reforma Urbana e integrante da ONG Terra de Direitos

 

Intervalo para almoço – 13h00 às 14h00

 

Parte 2 – Leituras Urbanas

Panorama dos impactos dos megaeventos esportivo sobre as metrópoles brasileiras – 14h00 às 18h00

Natal – Alexsandro Ferreira (UFRN – Observatório das Metrópoles)

Brasília – Rômulo Ribeiro (UnB – Observatório das Metrópoles)

Manaus – Rômulo Ribeiro (UnB – Observatório das Metrópoles)

Recife – Ana Maria Filgueira Ramalho (UFPE – Observatório das Metrópoles)

Fortaleza – Clélia Lustosa (UFCE – Observatório das Metrópoles)

Cuiabá – Adriana Queiroz (UFMT – Observatório das Metrópoles)

Salvador – Ângela Gordilho (UFBA – Observatório das Metrópoles)

São Paulo – Clarissa Gagliardi (USP – Observatório das Metrópoles)

Belo Horizonte – João Tonucci (IGC/UFMG – Observatório das Metrópoles)

Curitiba – Olga Firkowski (UFPR – Observatório das Metrópoles)

Porto Alegre – Paulo Soares (UFRGS – Observatório das Metrópoles)

Rio de Janeiro – Patrícia Ramos Novaes (IPPUR – Observatório das Metrópoles)

 

Dia 12 de dezembro de 2013

Manhã – 9h00 às 12h30 – Mesa de debate – Os Megaeventos na Trajetória Espaço-Temporal das Metrópoles Brasileiras: global, local; passado, presente e futuro.

Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro – IPPUR/UFRJ, coordenador nacional do Observatório das Metrópoles

Carlos Vainer – IPPUR/UFRJ, coordenador do Ettern.

Claudia Favaro – Representante da ANCOP – Articulação Nacional dos Comitês Populares (convidado, à confirmar)

Raquel Rolnik – FAU/USP,  Relatora especial das Nações Unidas para o direito à moradia

 

Intervalo para o almoço – 12h30 às 14h00

 

Parte 3 – Leituras Internacionais

Mesa 7 – Os Megaeventos na Perspectiva da Experiência Internacional – 14h00 às 18h00

Chris Bolsmann (Aston University) –  South Africa 2010: Reflections on Commodification, Space and Identity

John Horne (University of Central Lancashire) – Reflections on major sports events in the XXI century.

Martin Müller (Universität Zürich) – Mega-events and the World Cup 2018 in Russia: reflections and perspectives.

Volker Eick (Universität Bremen) – FIFA World Cup 2006: Privatizing the Urban Landscape by Security Means

 

 

Veja a seguir as imagens do Seminário Nacional Megaeventos.

Raquel Rolnik

Mesa Experiências Internacionais dos Megaeventos Esportivos

Chris Gaffney

 

Apresentação de Chris Bolsmann (Aston University)

Fidélis Alcântara, Comitê Popular de Belo Horizonte

 

 

Matéria e imagens Breno Procópio, Comunicação Observatório das Metrópoles

 

Última modificação em 13-01-2014 21:06:25

 

Tags: , ,