Formação do profissional da Cidade: experiência brasileira

O despreparo para enfrentar os desafios das sociedades urbanas e a ausência da formação de profissionais com conhecimento sobre as cidades, capazes de construir sistemas de gestão urbana eficientes são assuntos que já pareceram em outros boletins do Observatório. Trazemos agora uma experiência brasileira de formação de profissionais especializados no saber urbano.

O curso de  Urbanismo da Universidade Estadual da Bahia, apresentado em artigo do urbanista João Soares Pena, existe desde 1995 e visa “promover um diálogo entre as diversas áreas do conhecimento que tratam das questões urbanas de modo a construir um melhor entendimento sobre a cidade”.
Confira abaixo o artigo:

 

Urbanismo Unebiano: uma abordagem transdisciplinar da cidade

João Soares Pena1

A cidade é o locus onde são tecidas diversas relações, sejam sociais, econômicas, políticas, culturais, etc. Entender essa complexa contextura exige uma visão transdisciplinar sobre o espaço urbano. Esse é o propósito do primeiro e único curso de Bacharelado em Urbanismo do Brasil, sendo o primeiro curso no país em nível de graduação a formar urbanistas desvinculados da arquitetura2 .
O curso de Urbanismo é oferecido pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Salvador, desde 1995/1996. Segundo o professor Ney Castro, criador do projeto do curso e atual coordenador do mesmo, a motivação para a elaboração do curso foi a constatação, a partir de sua experiência técnica na Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (CONDER), da dificuldade de uma linguagem comum e uma compreensão da cidade superior às formações corporativas. Havia, então, a necessidade de promover um diálogo entre as diversas áreas do conhecimento que tratam das questões urbanas de modo a construir um melhor entendimento sobre a cidade.
O projeto do curso foi sustentado em pesquisas diversas que denotavam a necessidade de uma formação diferenciada. Assim, foram feitas investigações em diversas prefeituras; entrevistas com mais de 66 profissionais de áreas distintas em Salvador; além de pesquisa e análise sobre a conjuntura urbana das cidades do Estado da Bahia na época. A elaboração da grade curricular contou com a contribuição de profissionais de áreas distintas: sociologia, demografia, economia, transporte, arquitetura, biologia, engenharia, etc., o que possibilitou um corpo disciplinar que vai além dessas áreas individualmente, ou seja, ultrapassa seus limites.
A estrutura curricular do curso apresenta o mínimo obrigatório de 45 disciplinas, as quais estão interligadas no decorrer dos semestres. Existem duas grandes áreas, para as quais as disciplinas convergem: planejamento e gestão urbanos. Sendo assim, há uma preocupação com o futuro das cidades, com diretrizes para o desenvolvimento urbano, mas há também o esforço de lidar com os problemas que as cidades enfrentam cotidianamente. Mas, vale ressaltar que a compreensão do espaço urbano transcende as questões da forma e analisa-a como uma construção social. Como nos explica Milton Santos, não se pode analisar a forma isoladamente, mas no conjunto: estrutura, processo, função e forma3.
O curso de Urbanismo tem, então, formado profissionais sensíveis aos problemas urbanos e, sobretudo, preocupados com a promoção de uma cidade mais equitativa para a coletividade. A atuação profissional dos urbanistas unebianos está pautada em sua formação diferenciada que vê nas pessoas o foco das políticas e programas urbanos.

 

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[1] Urbanista graduado pela UNEB e mestrando em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA.

[2] FIGUEIREDO, Glória Cecília. O CAU e a farsa corporativa da vinculação exclusiva do urbanismo com a arquitetura. Arquitextos, São Paulo, 11.128, Vitruvius, jan 2011. <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.128/3694>

[3] SANTOS, Milton. Da sociedade a paisagem: o significado do espaço humano. Revista Arte Em São Paulo, n. 2, 1981.

 

Escrito por Observatório|Última atualização em Qua, 18 de Maio de 2011 12:13

 

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