Experiências olímpicas: representações, dissensos e legados

A entrevista da nova edição da Revista e-metropolis é com a professora Jilly Traganou, arquiteta, doutora pela Universidade de Westminster e professora na Parsons School of Design, em Nova Iorque. Suas pesquisas buscam analisar as relações entre espaço, arquitetura e design, com enfoque nas situações de dissenso, bem como o papel do design na configuração de novas identidades nacionais e pós-nacionais. Ela é autora do livro Designing the Olympics: Representation, Participation, Contestation (Routledge, 2016). Nessa entrevista, a professora fala da sua pesquisa mais recente e traça alguns paralelos entre as experiências olímpicas grega e brasileira.    

A entrevista “Experiências olímpicas: representações, dissensos e legados” é um dos destaques da Revista e-metropolis nº 32.

 

TRECHO DA ENTREVISTA

JM: Ao chegar no Rio para desenvolver sua pesquisa, quais foram as suas primeiras impressões? E quais semelhanças saltam aos olhos entre as experiências grega e brasileira?

JT: Na minha primeira visita ao Rio, em 2016, eu não queria ser uma portadora de más notícias. Como cidadã grega, eu presenciei a glória e a ruína dos Jogos Atenas 2004. No entanto, as similitudes entre os Jogos do Rio e de Atenas eram muito evidentes, não apenas porque ambas as cidades passaram pela síndrome do urbanismo cosmético – veja em ambos os casos a opção pela starchitecture e por Santiago Calatrava, uma receita óbvia para um sucesso de curto prazo seguido por derrocada, mas também pelas analogias em termos de trajetórias financeiras das duas cidades.

A diferença é que a economia grega começou a apresentar sinais negativos alguns anos depois da realização dos Jogos, enquanto no Brasil a crise começou antes mesmo da sua realização. Seria um exagero afirmar que as Olimpíadas são as únicas responsáveis pela crise desses países. Mas a forma como esses Jogos foram concebidos diz muito sobre as opções tomadas e que eventualmente influenciaram na crise: no caso grego, a enorme dívida externa, e, no caso brasileiro, os esquemas de corrupção. Além disso, não me surpreende que ambos os países adotaram um tipo de planejamento urbano que favoreceu o capital privado.

Apesar de a Grécia não ter a desigualdade social que vemos no Brasil, eu acho que ambos os países adotaram modelos de urbanização e de governança que enfraqueceram o sentido de público, fazendo com que os direitos sociais (educação e saúde públicas de qualidade, por exemplo) fossem atrofiados.

Assim, enquanto o espaço público estava sendo embelezado cosmeticamente com vista à realização desses megaeventos, os serviços públicos, pelo menos no caso da Grécia, estavam perdendo a qualidade. Os resultados dessa negligência foram dramáticos para o país. Antes da crise, esses serviços públicos não eram valorizados pela classe média grega, que optava por acessar os serviços privados. Hoje, essa classe média, que forma a maioria da população de Atenas, está em crise e se vê em uma cidade onde os serviços básicos como saúde, educação e transporte público estão deteriorados por conta do descaso que ela mesma apoiou.

A cidade se volta contra ela, e os atenienses hoje se arrependem dos enormes investimentos feitos para as Olimpíadas. No Rio, a situação é mais complexa e é natural que a atenção dos pesquisadores internacionais esteja no impacto negativo dos Jogos para as favelas e comunidades de baixa renda. Esse ponto não deve ser negligenciado, mas é igualmente importante observarmos a prioridade dada ao privado, como no caso da criação de parcerias público-privadas para a realização das intervenções urbanas ligadas à realização dos Jogos.

A atual crise no Brasil pode atrasar os lucros pretendidos, mas é difícil ser otimista quando a lógica dessas intervenções está pautada no lucro dos investidores. Essas obras realizadas no Rio, como o projeto Porto Maravilha, correm o risco de não cumprir com os objetivos dos seus promotores, pois os investimentos privados estão custando a chegar. É difícil prevermos o futuro da zona portuária. Em Atenas, por exemplo, o setor litorâneo de Faliron foi revitalizado para a realização dos Jogos e abandonado logo em seguida. Hoje, todo o investimento feito está se degradando porque a prefeitura não tem condições de manter as estruturas e os investimentos privados não chegaram. Talvez no caso carioca os desdobramentos sejam diferentes, mas eu gostaria apenas de frisar que projetos de revitalização são uma caixa de surpresas e a imprevisibilidade é uma constante.

Leia a entrevista completa no site da Revista e-metropolis.

 

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