E-book Cidades no século XXI: temas para debate

O INCT Observatório das Metrópoles divulga o lançamento do livro “Cidades no século XXI: temas para debate”, organizado pelas professoras Lúcia Bógus, Iracema Guimarães e Zoraide Pessoa. Publicado pela Editora Educ, o livro reúne artigos que dialogam com o tema “Que sociologias fazemos? Interfaces com os contextos locais, nacionais e globais” que pautou o 18º Congresso de Sociologia. A publicação é estruturada em torno de três eixos: estudos urbanos e da sociologia urbana; problemas que afetam as cidades contemporâneas; e a análise das transformações em curso nas cidades brasileiras apontando para a dualidade que as caracteriza, com a presença de atividades ligadas ao capital globalizado e com a existência de espaços de pobreza e exclusão, com forte presença de conflitos.

O livro “Cidades no século XXI: temas para debate” conta com a colaboração de várias pesquisadores vinculados à Rede INCT Observatório das Metrópoles, como Marcelo Gomes Ribeiro, Rafael de Aguiar Arantes, Sávio Guimarães, Lúcia Bógus e Zoraide Pessoa.

Em formato e-book, o livro está disponível para download no site da Editoria Educ.

 

APRESENTAÇÃO

Por Lúcia Bógus, Iracema Guimarães e Zoraide Pessoa

Este livro reúne um conjunto de artigos, cujos temas foram discutidos no Grupo de Trabalho “Cidades no Século XXI” durante o 18o Congresso de Sociologia, realizado em Brasília, em julho de 2017. Os oito capítulos dialogam com o tema do Congresso “Que sociologias fazemos? Interfaces com os contextos locais, nacionais e globais” e, considerando a inserção das cidades na dinâmica urbana contemporânea, foram estruturados em torno de três eixos temáticos:

1) abordagens que contemplam comparações entre cidades e apontam questões teóricas relevantes do ponto de vista dos estudos urbanos e da sociologia urbana;

2) discussão de problemas que afetam as cidades contemporâneas, especialmente no Brasil, com seus impactos nas relações sociais e nas formas de sociabilidade;

3) Análise das transformações em curso nas cidades brasileiras apontando para a dualidade que as caracteriza, com a presença de atividades ligadas ao capital globalizado e com a existência de espaços de pobreza e exclusão, com forte presença de conflitos.

O primeiro capítulo, Segregação socioespacial e desigualdades urbanas, de Marcelo Ribeiro, propõe enfrentar um duplo desafio. Em primeiro lugar, pretende discutir que a segregação socioespacial analisada na escala metropolitana apresenta maior heterogeneidade social nos espaços ocupados pelas camadas superiores da estrutura social e maior homogeneidade social nos espaços ocupados pelas camadas inferiores ou populares. Em segundo lugar, procura demonstrar que segregação socioespacial e desigualdades urbanas dizem respeito a dois fenômenos distintos, embora relacionados.

Discute essas questões e seus desdobramentos teóricos e empíricos a partir das relações entre a tipologia socioespacial e o índice de bem-estar urbano, com base na metodologia desenvolvida pelo Observatório das Metrópoles.

Ainda, assinala que as interações sociais são influenciadas pelas condições de homogeneidade ou heterogeneidade socioespacial tomando como foco de análise o processo de urbanização do Rio de Janeiro e sua dinâmica metropolitana.

Finaliza o texto indagando sobre a possibilidade de haver segregação socioespacial sem a presença de desigualdades urbanas e pondera, a partir das instigantes análises realizadas, tratar-se de algo possível, mas ainda distante da realidade das metrópoles brasileiras.

Na discussão proposta por Rafael de Aguiar Arantes, no segundo capítulo, o objeto de estudo é a cidade de Salvador. Em Inter-reconhecimento, diversidade e autossegregação: formas de sociabilidade nos espaços públicos de Salvador, o autor aborda as formas de sociabilidade urbana e suas inter-relações com as transformações nas dinâmicas econômica e social no último século, na capital baiana. Analisa os usos dos espaços públicos da cidade e as formas de sociabilidade urbana que neles se desenvolvem destacando as transformações observadas nas últimas décadas com a proliferação de condomínios fechados e o abandono crescente dos espaços públicos, numa recusa de convivência entre as classes sociais e no enfraquecimento dos laços de sociabilidade baseados na alteridade. Aponta como a fuga da violência e dos pretensos “males da cidade” promove a autossegregação e a busca de proteção, acompanhadas de privilégios e distinção.

O autor aponta, ainda, que a própria ideia de público adquire significados múltiplos na teoria e nos usos cotidianos e enfatiza a importância de problematizar o conceito, estabelecendo dimensões e indicadores teórico-metodológicos para sua análise.

Nos trabalhos que se seguem, terceiro e quarto capítulos do livro, a discussão focaliza o viver a cidade por meio de processos de revalorização cultural.

O terceiro capítulo, de Elder Malta, Consumindo cidades: recomposição turística e a valorização da paisagem cultural do Rio de Janeiro, analisa o processo de valorização turística mediante incentivo de políticas de intervenção nos espaços e paisagens, que constroem ou redefinem formas de consumo da cidade.

O autor aborda, numa perspectiva crítica, o processo de patrimonialização da paisagem cultural do Rio de Janeiro, tendo como objetivo a análise da política de valorização paisagística e de recomposição turística em torno da imagem de cidade patrimonial.

Tal processo tem como foco central a formulação de políticas e práticas de revitalização urbana que produzem o enobrecimento urbano e a turistificação da vida cotidiana. Tais práticas reinventam as imagens urbanas e orientam-se para a recomposição turística das cidades, promovida pelos setores empresariais e publicitários, assim como pelas redes sociais e mídia especializada.

O autor destaca que, apesar da ênfase na sustentabilidade ambiental, presente nas políticas de valorização patrimonial, a paisagem cultural é vista, sobretudo, como uma paisagem turística definida pelo seu valor de consumo, contribuindo para o enobrecimento de es- paços públicos centrais, litorâneos e de alguns morros ocupados por favelas, num processo de transformação da contrapaisagem em paisagem turística.

Na sequência, Ewerthon C. de Jesus Vieira analisa, em Licença quem me dá são meus Orixás!”. Espetacularização urbana e antinormatividade em Salvador da Bahia, as relações de consumo presentes na capital baiana. O texto resulta de uma dimensão investigada em sua tese de doutorado a respeito das políticas urbano-culturais e da reinvenção da imagem de consumo da cidade de Salvador-BA, durante a preparação e a realização dos megaeventos esportivos da Fifa, em 2013-2014. Conforme o autor, a lógica de produção das cidades tende a destituir o caráter público dos espaços, através da regulação de usos, por meio de “práticas antinormativas de apropriações e reapropriações culturais vinculadas às imagens de consumo das cidades”.

Destaca que, nesse processo, a construção de espaços de consumo se torna uma importante estratégia para fomentar a indústria turística e atrair investimentos financeiros externos. Sob essa perspectiva empreendedora, algumas práticas e costumes culturais locais são apropriados como negócio criativo, mas efetivamente perverso, na medida em que consolida cidades cada vez mais segregadas e desiguais. A análise focaliza esses aspectos como característicos da espetacularização urbana, fenômeno cada vez mais geral na contemporaneidade, mas ainda pouco precisado conceitualmente no campo das Ciências Sociais.

Dialogando com os trabalhos anteriores, o quinto capítulo, Aqui e ali – BH, Brasília e Lisboa – a amplitude dos processos de gentrificação urbana, de Rachel de Castro Almeida, Patrícia Pereira e Sávio Guimarães, analisa mudanças no comércio urbano, sob o foco da gentrificação comercial e simbólica, observadas em centros históricos de diferentes cidades. Destaca-se o caso de Belo Horizonte, onde novas tipologias de lojas configuram mudanças nos usos do seu Mercado Central, permitindo atrair novos públicos e confirmando o seu potencial para entrecruzar fluxos, através de crescente perda de espaço dos tradicionais produtos do “patrimônio cultural mineiro”, diante de uma nova inserção de espaços históricos em áreas de entretenimento urbano e consumo cultural.

Em Brasília, as dinâmicas de transformação urbana em quadras residenciais e comerciais da Asa Norte, Parque Olhos d’Água, faz com que a especulação imobiliária venha provocando concentração homogênea de estabelecimentos dirigidos a consumidores mais capitalizados, vinculados a modelos gourmetizados de serviços, em comparação com quadras comerciais seguintes, onde se observa maior resistência aos processos de enobrecimento, de atividades e clientela, permanecendo mais próximos ao projeto original da cidade.

Enquanto, em Lisboa, as transformações no Centro Histórico são mais antigas, mas um processo mais recente de gentrificação vem ocorrendo na área em torno das ruas Poço dos Negros e próximas, historicamente ligadas, tanto ao trabalho no porto, como à pequena indústria. Observa-se, a partir de 2013, crescente especulação imobiliária, aumento do número de turistas e transformações profundas da dinâmica comercial, cultural, residencial e dos espaços públicos da área, com fechamento de lojas antigas de produtos e serviços de uso cotidiano e abertura de novas lojas com produtos, design e gourmet, tradicionais versus autênticos, e cafés e restaurantes, do mesmo modo. Nos três casos, a coexistência entre elementos de transformação, de permanência e de resistência possibilita uma visão crítica das estratégias de gentrificação e seu caráter segregacionista.

No sexto capítulo, Migração de dependência”: a imigração haitiana no Brasil, de Luís Felipe Aires Magalhães e Rosana Baeninger, os autores abordam a relação entre a cidade, a migração e a circulação da força de trabalho na era da globalização, chamando a atenção para o caso dos migrantes haitianos, como exemplo das mudanças no sistema migratório sul-norte, suplantado por um sistema migratório sul-sul.

A questão é abordada a partir de três dimensões, haitiana, internacional e brasileira, relacionadas pelo fenômeno da dependência, conceito que resulta da aproximação entre os estudos históricos-estruturais e a teoria marxista da dependência, permitindo discutir aspectos da crise capitalista, como a diminuição dos níveis de remessas financeiras dos migrantes, substituída pela “migração de dependência”, através do fluxo migratório internacional formado pela presença econômica, política e militar, de um país dependente (Brasil) em outro (Haiti).

O fenômeno é assim demonstrado, através da sua dependência de remessas financeiras, a partir da qual as famílias de migrantes em posição de vulnerabilidade utilizam esses recursos para a subsistência material. Ou ainda, a “dependência”, que reside na inserção dos haitianos no mercado de trabalho, não pela via da informalidade, mas de uma superexploração da força de trabalho, em setores formais.

O sétimo capítulo, A presença e o deslocamento dos indígenas no processo de ocupação e urbanização da região metropolitana de Manaus, de Márcia Cristina Lazzari, focaliza as relações entre crescimento urbano e novas territorialidades, buscando refletir sobre suas consequências sociais, culturais e políticas associadas ao processo de degradação do meio, a exemplo do povoamento indígena nas cidades da região metropolitana de Manaus (RMM).

A autora apoia-se na legislação sobre política urbana situando a questão da moradia como um direito social, considerando, no caso dos indígenas, o direito às suas terras definido como comunidades tradicionais, em contraste com o processo de crescimento das cidades, a ausência de planejamento urbano e as dificuldades de assegurar igualdade de condições de moradia e de preservação ambiental, quando se constata a presença de indígenas em meio urbano.

Entre outros exemplos, destacam-se experiências como a Comunidade Beija-Flor, onde a união das etnias fortaleceu o grupo que alcançou a delimitação da terra; e, em outros casos, a comercialização e a produção de artesanato, como principal fonte das famílias, tendem a ser afetadas por processos de terceirização no qual o valor dos produtos é rebaixado, e a renda torna-se insuficiente para arcar com o custo de viver na cidade. Essas situações tendem a se generalizar, considerando-se informações sobre etnias que estão abandonando suas tribos, devido à saúde precária ou em busca de educação para os mais jovens, observando-se que, em cerca de 90% dos bairros de Manaus, moram indígenas.

No oitavo capítulo, Leblon: o território encantado, de Marusa Bocafoli da Silva, Rodrigo Anido Lira e Renata de Souza Francisco, os autores se propõem a analisar a constituição de territórios/bairros e a maneira como estes distinguem e segregam indivíduos. Para isto, focalizam um bairro residencial de alta classe média do Rio de Janeiro, cujas paisagem, arborização e vias limpas, com inúmeras padarias, cafés e outros estabelecimentos frequentados por pessoas com poder aquisitivo, contrastam com uma outra paisagem sobre- posta, a de inúmeros indivíduos, na maioria mulheres e negras. A pesquisa concentra-se na observação da circulação nesse espaço, situando os dois tipos de cidadãos que aí se movimentam, moradores e trabalhadores, tais como babás, empregadas domésticas ou porteiros, cujo ritmo de circulação revela pressa e atenção na sua relação com o território.

A produção do espaço tende a ser legitimada em discursos que colaboram para a sua constituição diferenciada, como no bairro em foco, na medida em que é “consumido” por indivíduos que possuem condições sociais privilegiadas. Assim, o uso do espaço, segundo os autores, sinaliza para um ordenamento complexo do lugar ocupado pelos indivíduos que estabelecem relações nesse território, e as relações de trabalho é que permitem revelar encontros e aproximações, mostrando que no mesmo espaço, nos apartamentos, nos clubes, na praia ou nos restaurantes, os indivíduos estabelecem limites nos seus usos.

Finalizando, cabe pontuar que este livro, em formato e-book, constitui o importante desdobramento das atividades do GT em uma iniciativa das suas coordenadoras, com o intuito de ampliar as discussões para além dos limites do grupo de trabalho, incentivando o intercâmbio e trazendo a um público mais amplo as instigantes análises realizadas pelos autores.

Acesse o ebook “Cidades no século XXI: temas para debate”.

 

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