Cities by Design – The Social Life of Urban Form

Cities by Design – The Social Life of Urban Form

Nesta resenha o profº Frederico de Holanda escreve sobre a obra “Cities by Design – The Social of Urban Form”, de Fran Tonkiss. O livro analisa a cidade não como simples produto de sujeitos sociais e seus modos de ação. Tonkiss procura socializar a nossa compreensão do processo de produção da cidade, a preocupação com a forma urbana nesse sentido pode ajudar a captar a materialidade dos processos sociais, econômicos e legais.

 

Frederico de Holanda é Arquiteto (UFPE, 1966). Doutor em arquitetura (Universidade de Londres, 1997). Professor Titular, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de Brasília. E é pesquisador membro da Rede Nacional INCT Observatório das Metrópoles. Holanda investiga relações entre configuração edilícia e urbana, uso dos espaços abertos públicos, e segregação socioespacial. Coordena o grupo “Dimensões Morfológicas do Processo de Urbanização” (Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil, CNPq). É consultor de agências de fomento do Brasil e do exterior. Pesquisador 1A (CNPq).

 

NUANÇAS URBANAS

Resenha do livro: Fran Tonkiss: Cities by Design – The Social Life of Urban Form

Frederico de Holanda

A palavra “nuança” não aparece no índice do livro Cities by Design – The Social Life of Urban Form (2013), por Fran Tonkiss. Entretanto, a palavra, e as ideias que ela transmite, perpassam o livro de maneiras emblemáticas.

O título coloca um problema inicial. Design é de difícil tradução para o português – a escolha varia em função do contexto. Para o livro de Tonkiss, eu optaria por uma tradução livre, a refletir o espírito do trabalho: Os projetos da cidade – a vida social da forma urbana. O plural (“projetos”) transmite a visão da autora, pela qual a cidade se produz mediante contribuições de milhares, milhões de atores sociais.

Georges Clemenceau uma vez disse, “a guerra é assunto muito sério para ser deixado aos militares”. Mutatis mutandis, na espinha dorsal do livro de Tonkiss está a ideia de que o projeto da cidade é assunto muito sério para ser deixado aos arquitetos, planejadores, especialistas de quaisquer origens… Mas isso não é feito de maneira normativa. Ela começa seu trabalho dizendo: “A feitura da cidade é um processo social”, realizado mediante a ação de atores dos mais diversos tipos. (As traduções das citações são minhas.) A “equipe diversa e frequentemente anônima” é constituída por “produtores e comerciantes, consumidores e financiadores; organizadores, intermediários e povão; novatos e veteranos; chefes de família e trabalhadores; crianças e idosos”. Eles agem de muitas maneiras: intencionalmente ou não; mediante conhecimento sistemático ou por conhecimento difuso, tácito, inconsciente, social; legal e ilegalmente; formal e informalmente; individual e coletivamente; em processos de ação “de-baixo-para-cima” ou noutros, “de-cima-para-baixo”; por meio de edifícios excepcionais e inovadores, e com outros banais que reproduzem o status quo do tecido comum da cidade etc.

Entretanto, a cidade não é simples produto de sujeitos sociais e seus modos de ação: “assim como essa visão procura socializar nossa compreensão do processo de produção da cidade, a preocupação com a forma urbana pode ajudar-nos a captar a materialidade dos processos sociais, econômicos e legais”. Assim, Tonkiss alinha-se com pensadores como Bill Hillier e os pressupostos da Teoria da Sintaxe Espacial, pelos quais a organização espacial nasce social, e constitui, tanto quanto representa a sociedade (ela não faz a conexão explicitamente, ver abaixo). Ao falar em “materialidade”, a autora refere que o tecido urbano é uma das maneiras pelas quais aqueles processos – sociais, econômicos, legais – tornam-se reais no espaço e no tempo. Podemos lembrar o “círculo virtuoso” de Anthony Giddens: do pensar, teorizar, hipotetizar, esperar (por um lado), para o construir, agir, fazer (por outro), e de volta para o re-pensar, re-teorizar etc. Refazemos nossos modos de pensar pelas lições apreendidas a partir das práticas materializadas. Abordar o círculo num ponto em particular é mais uma questão de conveniência ou (legítima) escolha que uma questão do que “vem primeiro”.

A visão nuançada de Tonkiss permite uma discussão inovadora, ao apontar práticas “incorporadas” em áreas insuspeitadas, como na infraestrutura urbana. Não é simplesmente que a infraestrutura nas cidades produza e reproduza condições de vida – leia-se, padrões de desigualdade – mas é que ela pode ser de fato constituída, em muitos casos, por seres humanos reais, particularmente em condições de pobreza: “riquixás e carroças (…), especialmente em cidades asiáticas; (…) catadores manuais (…) que apanham, selecionam e reciclam lixo; (…) mulheres que carregam água, ou coletam e transportam madeira e outros combustíveis”. Como em tantos aspectos em seu livro, ela discute infraestrutura como “projeto político”: “os colapsos da infraestrutura – aqueles momentos em que redes enterradas ou pouco manifestas tornam-se visíveis como problemas – são rotineiramente colapsos políticos”.

Fran Tonkiss é socióloga, mas surpreende ao identificar, ou ao menos enfatizar uma dimensão social no trabalho de autores usualmente tidos como sendo mais “visualistas” que “sociais”, os que exploram mais os aspectos “expressivos” que os “práticos” do projeto das cidades. Exemplo emblemático é Kevin Lynch, oriundo da disciplina da arquitetura. Muito conhecido por sua contribuição sobre a “imagem da cidade”, Tonkiss foca, entretanto, as nuanças de sua obra mais pertinentes às dimensões sociais da configuração urbana. Como demonstra, foram muitas. Sua referência às preocupações de Lynch quanto às “inter-relações críticas entre formas urbanas e objetivos humanos” é recorrente. Claro, Tonkiss também discute teóricos como Jane Jacobs, Henri Lefebvre, Lewis Mumford, Bruno Latour, Rem Koolhas etc. Mas é notável (e gratificante, podemos acrescentar, sob risco de soarmos demasiadamente entusiasmados corporativamente…), que Lynch é o mais citado autor, num livro de uma socióloga: o índice mostra citações em 29 páginas, comparadas a 17 citações de Mumford (que vem em segundo lugar), 16 de Louis Wirth, 14 de Lefebvre, 7 de Jane Jacobs… Justa homenagem.

O livro perpassa um número de aspectos-chave nos estudos urbanos. Quanto aos mais gerais, Tonkiss dialoga com Louis Wirth, que escreveu, talvez, o texto clássico sobre o assunto (itálico dela): “Urbanism as a way of life” [Urbanismo como modo de vida]. Ela discute as três questões fundamentais concernentes à cidade: tamanho, densidade e diversidade.

Tonkiss concorda que cidade = grande tamanho é uma equação razoável, mas que o ponto é discutir os prós e contras que vêm com o tamanho. Num mundo que se tornou predominantemente “urbano” na primeira década do séc. XXI, as cidades implicam 1) maiores níveis de produtividade econômica, maiores salários, maiores oportunidades econômicas, maior grau de inovação etc., mas também podem implicar 2) deseconomias de escala, superpovoamento, congestionamentos e poluição que tendem a “atingir mais pesadamente os pobres urbanos”. Entretanto, responder à questão “quão grande é ser grande demais?” não é coisa fácil: “o exemplo de Tóquio, a maior cidade no mundo, sugeriria que ‘mega-cidades’ (…) não são nem disfuncionais nem ingovernáveis simplesmente por definição”.

Quanto a densidade, a discussão se aproxima de questões de morfologia urbana (mas não o bastante, ver abaixo), independentemente de tamanho. Novamente, não há fórmula mágica. Discussões correntes tendem a valorizar esquemas compactos, por razões ambientais e sociais: configurações mais densas favorecem relações interpessoais. Entretanto, isso depende de quão diversas (ou não) as cidades são: alta densidade, mas leiautes habitacionais monofuncionais, afastados de empregos e serviços, implicam sérios problemas de mobilidade, particularmente para quem depende de transporte público.

Dentre as três dimensões de variabilidade, talvez diversidade seja a questão-chave. Aqui, Tonkiss qualifica sua relação com Wirth: “a questão das cidades, com o devido respeito para com Wirth, não é simplesmente que elas contêm uma grande quantidade de pessoas concentradas espacialmente, mas que elas apoiam e intensificam heterogeneidade social, econômica e cultural”. “Projetar para a diversidade” não significa simplesmente prescrever “usos mistos”, mas – e aqui temos novamente uma questão política – deixar margem para improvisação em “espaços intersticiais e não planejados” (ela dá exemplos mundo afora). A característica fundamental de “ser cidade” [cityness] implica também a disponibilidade de espaços para práticas sociais imprevistas.

“Ser cidade” – ou urbanidade, digamos – implica uma “ligação” (quase literalmente…), ausente na abordagem de Tonkiss, a reunir tamanho, densidade e diversidade: configuração espacial. Cidades podem ser densas (p.ex. Dubai), podem ser variadas (p.ex. Atlanta), podem ser grandes (p.ex. Brasília), ou podem até reunir todos os atributos (p.ex. o Rio de Janeiro em seu desenvolvimento para o oeste, na Barra da Tijuca). Entretanto, nenhum dos casos tem cityness – ou urbanidade – por conta da maneira como tamanho, densidade e diversidade são configurados espacialmente. As altas torres separadas por grandes trechos de “terra de ninguém” (Dubai), as atividades introvertidas e as fachadas cegas definindo espaços públicos (Atlanta), a dispersão (Brasília), os condomínios fechados, independentemente do uso do solo (Rio), todos sofrem de sérios problemas morfológicos que impedem as categorias clássicas de Wirth de funcionarem bem.

Por isso, surpreende a ausência dos escritos de um Bill Hillier na bibliografia, ou qualquer referência aos estudos da Teoria da Sintaxe Espacial, ou a outros estudos de morfologia urbana. Pois, ao fim e ao cabo, a vida social da forma urbana – correlata da lógica social do espaço urbano – está no âmago do livro de Fran Tonkiss. O qual, apesar do “elo ausente”, nasce como um clássico na sociologia urbana. Leitura obrigatória.

 

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