Cidades globais e as grandes firmas | Peter J. Taylor

No artigo “World cities and territorial states under conditions of contemporary globalization”, Peter J. Taylor traz sua contribuição para o debate sobre as cidades globais a partir da atuação das chamadas big firmas. Criticando a lista de cidades mundiais elaborada por Friedmann, o autor criou uma lista de 55 cidades globais a partir de um banco de dados sobre a geografia dos escritórios de 69 grandes empresas em 263 cidades, pertencendo a quatro setores de atividades (contabilidade, publicidade, banco/finança, direito/consultoria jurídica).

A resenha sobre o artigo “World cities and territorial states under conditions of contemporary globalization”, de Peter J. Taylor, foi elaborada pelo pesquisador Michael Chetry e é mais um produto do INCT Observatório das Metrópoles a fim de promover o debate sobre as metrópoles mundiais.

Além disso, o instituto vai participar em 2013 do projeto “Estado, Grandes Firmas e Governança para o Desenvolvimento Metropolitano”, que será realizado por um grupo de institutos de pesquisas em cidades como Paris, Londres, Roma, Istambul, Bombaim e Pequim. O Observatório das Metrópoles contribuirá com a investigação a partir da análise do contexto brasileiro no Rio de Janeiro – no qual grandes empresas atuam nos preparativos dos megaeventos esportivos.

Para mais informações sobre o projeto “Estado, Grandes Firmas e Governança para o Desenvolvimento Metropolitano”, acesse aqui.

Veja a seguir a resenha sobre o trabalho de Peter J. Taylor.

 

RESENHA

Por Michael Chetry*

Taylor, Peter J. (2000), “World cities and territorial states under conditions of contemporary globalization”, Political Geography, 19, p.5-32.

Baseando-se em um artigo anterior sobre as mudanças de relações entre cidades e estados (nações) no sistema mundial moderno capitalista, Peter J. Taylor busca no artigo “World cities and territorial states under conditions of contemporary globalization” (Political Geography, 19) rever a ideia segunda a qual as cidades subsituem os Estados como centro espacial e institucional chave do mundo moderno, que fica no centro das teorias da globalização que predizem o fim do Estado. O autor entende a globalização como umas das maiores tendências das mudanças sociais contemporâneas, e coloca ênfase na importância tomada hoje pelos processos transnacionais, cujas manifestações geográficas mais visíveis são as cidades mundiais (ou globais). Introduzindo a dimensão política, ele defende que existe uma única geografia política que integra a mosaica política tradicional dos territórios nacionais com a rede das cidades mundiais. Desse modo, para o autor, combinar o espaço mundial dos territórios e o espaço mundial dos fluxos leva certamente a uma abordagem crítica da realidade contemporânea.

Num primeiro tempo, Taylor faz um retrato das teorias e práticas ligadas às pesquisas sobre as cidades globais. Ele observa o que falta nas análises comparativas das cidades: geralmente baseadas em dados de censos são informações sobre as relações entre as cidades, ou seja, referem-se aos fluxos entre elas.

A teoria que guia as pesquisas sobre as cidades mundiais, elaborada inicialmente por Friedmann, vê as cidades como o ponto básico (‘basic points’) do capital na economia mundial. Em relação a isso, Braudel nas suas análises do sistema-mundo introduziu uma perspectiva nova olhando para o capitalismo e o Estado, e as relações das cidades entre esses dois. Mais do que isso, Braudel se posicionou propondo uma ruptura completa com os pensamentos clássicos do Smith e Marx, que atribuíram a difusão do capitalismo ao estabelecimento de mercados competitivos, argumentando, ao contrário, que o capitalismo é antimercado, os grandes lucros devendo ser feitos dentro de monopólios. Para Braudel, em vez de o monopólio ser um “vício” na fábrica de um capitalismo competitivo, ele é o capitalismo mesmo. Assim, o capitalismo é um mundo de múltiplos monopólios, não de múltiplos mercados.

Essa perspectiva tem várias consequências. Primeiro, ela coloca o Estado no centro das análises. Para Braudel, o poder é o mecanismo básico do capitalismo, e o Estado é diretamente implicado como uma parte dele. Segundo, a manipulação política do espaço foi crucial na elaboração dos monopólios. Focando sobre os monopólios como uma operação comum do capitalismo, o autor propõe algumas estratégias de monopólio ou nexos antimercados, como combinação de estratégias geográficas baseadas no conhecimento e coercitivas. São oito estratégias: “Imperialismo”, “Protecionismo”, “Multilocalização das empresas”, “Mafioso”, “Corporativismo”, “Hegemonismo”, “Inovação” e “Regionalismo”. A partir daí, as cidades mundiais contemporâneas são uma forma específica do nexo antimercado regional (Storper, 1997). As cidades mundiais são as principais concentrações de inúmeros poderes de monopólio, entre as quais os serviços superiores identificados por Sassen e cujo objetivo é o de desenvolver múltiplos monopólios de produtos de alto conhecimento.

Depois do posicionamento teórico, Taylor apresenta na parte empírica deste artigo a pesquisa sobre as cidades mundiais focalizando sobre as empresas de serviços superiores e as suas redes de escritórios. Para isso, ele construiu um banco de dados sobre a geografia de escritórios de 69 empresas em 263 cidades, pertencendo a 4 setores de atividades (contabilidade, publicidade, banco/finança, direito/consultoria jurídica) com objetivo de estudar a formação da rede de cidades mundiais. Assim, em vez de se interessar nas relações econômicas entre os Estados como é geralmente o caso nos estudos sobre a economia mundial, a proposta aqui é de analisar as relações entre as cidades. Mais precisamente a ideia é de analisar em que medida as empresas participam do processo de formação das cidades mundiais.

A distribuição dos escritórios para a publicidade, banco/finança e direito é muito similar. Ela evidencia processos de concentração, algumas cidades sendo fora da localização dos escritórios, tendência que confirma uma posição de cidade/monopólio mundial. A situação dos escritórios de contabilidade é totalmente diferente. Contabilidade tem os maiores atributos monopolistas: o setor conta com um número de atores muito reduzido (5); o resultado são empresas enormes que têm muito mais escritórios do que as empresas dos outros setores e que são localizadas em muitas mais cidades.  Em outros termos, a formação de cidade mundial implica um processo de concentração espacial em vez do equilíbrio.

Num segundo momento, o autor procura saber onde ficam as cidades mundiais. Interroga-se de maneira clássica sobre o critério que se deve utilizar para definir uma cidade mundial. Para o autor, não é uma questão de tamanho, mas de soberania no campo das relações econômicas internacionais: uma megacidade pode não ser uma cidade mundial e reciprocamente. Criticando a lista de cidades mundiais elaborada por Friedmann, o autor criou uma lista de 55 cidades mundiais a partir do seu banco de dados e baseando-se na existência/ausência e o tamanho dos escritórios das firmas e os seus estatutos na organização delas. O procedimento foi o seguinte. Para cada um dos quatro setores, ele identificou três níveis de serviço global (centro principal/ maior/ menor) às quais ele associou uma nota (3/2/1). No total, as cidades têm um nota final incluída entre 0 e 12 : aquelas que tem uma nota zero são excluídas da lista, as 55 cidades que têm uma nota igual a 4 ou superior são consideradas como cidades mundiais. A nota 4 foi escolhida como limiar para definir uma cidade mundial em razão da distribuição das notas e pelo fato que uma cidade que tem esta nota é um centro para o mínimo dois dos serviços. Ao final, as 55 cidades são classificadas em 4 categorias: Cidades Mundiais Alpha (de 10 a 12 pontos), cidades mundiais Beta (de 7 a 9), cidades mundiais Gamma (de 4 a 6) e cidades com funções internacionais (até 3).

O autor começa a análise cruzando essa lista de 55 cidades mundiais com a lista dos Estados. O resultado disso é que 33 Estados acolhem cidades mundiais sendo que 24 tem uma só (Inglaterra, France) enquanto outros têm várias como os EUA (11) e a Alemanha (05). De um lado, isso revela a concentração histórica na cidade capital em países altamente centralizados, do outro, a combinação entre políticas federais descentralizadas e uma economia nacional de grande porte. Além disso, observa-se uma relação estreita entre o tamanho da economia nacional (medido pelo PIB), a distribuição e o nível dos processos de formação das cidades mundiais, uma vez que 8 das 10 cidades mundiais de categoria Alpha são localizadas nas 6 maiores economias.

Questionando os processos transnacionais além das relações ao nível dos estados, o autor analisa as diferenças de provisão de serviços entre as cidades a partir de informações sobre o tamanho dos escritórios, tanto em termos do número de profissionais quanto de conexão de fax. Em razão da falta de dados, a análise se restringe às 10 maiores empresas dos setores de contabilidades, banco/finança e de direito. A comparação do nível de provisão de serviços em relação à cidade de maior pontuação para cada um dos três setores (Londres para a contabilidade e Nova York para os setores banco/finança e direito) dá uma estimação da localização de cada cidade no processo de formação de cidade mundial. Desse ponto de vista, atrás de Nova York e Londres, chegam Hong-kong, Frankfurt, Paris e Tóquio, todas quase no mesmo nível.

Para revelar os processos transnacionais, o autor procura avaliar o excedente e o déficit de formação de cidade mundial em relação à demanda nacional para os serviços, ou seja, o PIB. O maior excedente é Londres, o que quer dizer que a cidade fornece serviços para muito mais do que o seu próprio país, seguido de Hong-kong e Singapura revelando o caráter de centro de serviços transnacionais dessas cidades.

Aliás, a geografia desses processos transnacionais pode ser abordada através da análise da geografia dos escritórios e da organização regional das empresas.  Assim, poucas cidades sediam o escritório regional de mais de uma empresa: cinco cidades parecem ser um centro regional principal (Nova York, Londres, Miami, Singapura, Hong-kong). Outras têm responsabilidades regionais limitadas como Tóquio (que é o centro para a região do Japão), Paris (para a África francófona), Johanesburgo (para África), etc. Desse ponto de visto, Londres domina as cidades mundiais europeias, enquanto Nova York é o centro para a região das Américas e Miami para a América Latina. Esses casos mostram que uma cidade pode ser um centro regional principal e não ser uma cidade mundial importante (Miami) e vice-versa (Paris, Tóquio). Ao final, por mais que se note as relações “nacional-regional”, não há uma clara integração hierarquizada, mas algumas cidades específicas que desenvolvem monopólios do conhecimento para regiões dadas.

Enfim, a última parte da seção empírica do artigo se interessa na questão de “quem é onde”. Considerando a localização da sede das empresas como pouco importante, o autor se concentra sobre os centros regionais tomando como exemplo as empresas de direitos da Europa do Oeste que estão dentro e fora de Londres. O número de empresas de direito que tem uma filial em Londres mostra que as cidades se beneficiam ao se juntar ao monopólio do conhecimento de Londres para desenvolver o lado global das suas articulações “nacional-global”. Aliás, a maioria das empresas vem dos maiores países europeus, sendo Paris, Milan, Madri e Frankfurt fazem parte da rede das empresas de direito de Londres, enquanto Amsterdam, Lisboa, Stockolm não. O autor termina evocando o conceito de “homeless firms” sendo relevante no âmbito dos debates sobre a globalização. Trata-se de empresas, como a Baker & MacKenzie que não definiram a sede pelo fato que elas operam como parceria global, ou seja, com parceiros de todas as regiões do mundo que têm o mesmo estatuto. Isso vai contra as críticas do conceito de “global firm”, como aquelas formuladas por Dicken que afirma que as empresas mesmo tendo relações globais, mantém a cultura de negócio do país de origem.

Para concluir, além das limitações óbvias da análise (falta de dados em particular), o autor aponta as dificuldades para teorizar os problemas numa perspectiva transnacional. A geografia política é ainda dominada por um pensamento centrado no Estado. O autor identifica também dois desafios críticos para a prática e a teoria na pesquisa transnacional: o primeiro remete-se aos dados sobre a tendência que constitui a globalização nas mudanças sociais contemporâneas, o segundo é considerar a questão do conhecimento entre as cidades em termos de “conhecimento global” e não somente de concentração de conhecimentos especializados nas cidades mundiais.

Nesse contexto o autor chama a atenção para a necessidade de estudar a rede global de cidade como um todo. Nesse sentido o projeto de pesquisa “Globalization and World Cities” (GaWC) que ele elaborou pode ser um bom ponto de partida promovendo pesquisas no espaço dos fluxos e procurando produzir e agregar dados sobres os processos transnacionais. Isso implica alcançar certa padronização sobre o que medir e como medir. Além disso, o autor sugere também desenvolver pesquisas sobre as redes, cujos tipos principais são a rede diplomática que relaciona governos em países com outros; e a rede comercial que relaciona firmas em cidades com outras, o segundo tendo a característica de ser bem mais hierarquizado do que o primeiro. O resultado é uma rede de cidade mundial complexa que forma e interage com o sistema inter estado. Desse ponto de vista, o futuro da globalização depende da eficiência de uma rede reflexiva de monopólios de conhecimento.

Michael Chetry

Doutor em Geografia e Planejamento Urbano pela Université Jean Moulin/Lyon III e pesquisador da Rede Observatório das Metrópoles.

 

Última modificação em 28-02-2013

 

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