Cadernos Metrópole nº 41 — Dossiê Mobilidade Espacial

As novas formas urbanas e o processo de produção do espaço revelam, dentre outras dimensões, o importante papel da mobilidade espacial da população, em geral, e da migração, em particular, como elementos constitutivos da estruturação do espaço. Para debater esse tema, a Revista Cadernos Metrópole lança o dossiê “Mobilidade Espacial” que integra a sua edição nº 41, no qual apresenta aspectos relevantes para compreender a expansão, a consolidação, as (re)configurações das aglomerações urbanas metropolitanas e não metropolitanas, dos espaços urbanos e seus nexos com a mobilidade da população nas suas mais diversas modalidades, como a migração interna e internacional, para se pensar em deslocamentos de maior distância e os deslocamentos no espaço intraurbano.

Segundo os professores Rosana Baeninger  e José Marcos Pinto da Cunha (organizadores da edição nº 41 da Cadernos Metrópole), os artigos presentes no dossiê   trazem contribuições que privilegiam desde o debate acerca de conceitos sobre o processo de urbanização e metropolização, até as variadas formas de aglomeração urbana, a mobilidade residencial, a mobilidade pendular, a mobilidade urbana, a desigualdade na mobilidade espacial, a gestão metropolitana no âmbito do movimento de reestruturação espacial produtiva e os processos de mobilidade espacial da população.

“Os artigos que constam deste dossiê contribuem para refletir sobre os caminhos contemporâneos do processo de metropolização e de formação de grandes aglomerações urbanas, que, embora reproduzindo elementos e características de épocas passadas, revelam muitas especificidades e, portanto, novas implicações. Pensado para abrir espaço para a análise da mobilidade espacial da população nesses contextos e tempo histórico, instigando a identificação de causas e consequências dos espaços da migração e da mobilidade intraurbana, espera-se que este dossiê contribua para o constante desafio de acompanhar a intensidade das transformações advindas da dinâmica socioespacial produtiva em curso neste século XXI”, escrevem Baeninger  e Pinto da Cunha.

Acesse no link a edição completa da Revista Cadernos Metrópoles nº 41.

 

CADERNOS METRÓPOLE

A Revista Cadernos Metrópole conquistou, em fevereiro de 2017, a classificação A1 na área de Sociologia da Plataforma Qualis Capes. O anúncio representou mais uma vitória para a Rede Nacional INCT Observatório das Metrópoles e consolida a Cadernos Metrópole como uma das principais revistas científicas do país na investigação sobre o tema urbano e metropolitano. Indexada nas Plataformas Scielo Brasil, Redalyc e Latindex, o periódico vem publicando dossiês que abordam temas como formas de provisão de moradia; águas urbanas; gentrificação; teoria urbana na América Latina; mobilidade urbana; direito à cidade, entre outros.

Para os editores Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Lúcia Bógus, a qualificação representa o reconhecimento da importância do periódico e de sua relevância acadêmica para as áreas de Ciências Humanas e Sociais em suas interfaces com o Planejamento Urbano, o Urbanismo e as Políticas Públicas. Agora a CM tem as seguintes classificações: A1 na área da Sociologia; A2 na área da Arquitetura, Urbanismo e Design; e A2 na área de Planejamento Urbano e Regional/Demografia.

O caráter interdisciplinar da publicação vem contribuindo, desde o final dos anos 1990, para o debate plural das questões emergentes da sociedade contemporânea e sobretudo de áreas urbanas. Os dossiês temáticos de cada número têm respondido às demandas de cientistas sociais, pesquisadores e formuladores de políticas públicas interessados em divulgar suas ideias em um espaço aberto às discussões acadêmicas e às análises críticas.

DOSSIÊ MOBILIDADE ESPACIAL

A discussão conceitual de metropolização e metrópole na nova economia capitalista é apresentada no artigo Metropolização, aglomerações urbano-industriais e desenvolvimento regional no sul do Brasil, de Paulo Roberto Rodrigues Soares, apontando sua importância para o desenvolvimento regional no caso específico do Rio Grande do Sul. O autor afirma que a economia industrial mais dinâmica desse estado “tem na metrópole o seu suporte para inserção em um mercado global, ao mesmo tempo que a presença dessas aglomerações no interior do estado contribui para o crescimento do terciário superior na metrópole” (pp. 26-27). Essa dinâmica é constituída pela presença de arranjos populacionais metropolitanos e em seu entorno, emergindo, dentre os fluxos metropolitanos, a intensificação da mobilidade da população no âmbito dessa urbanização composta também por núcleos polarizadores sub-regionais.

Esse desenho da rede urbana consolida periferias metropolitanas, como mostra o artigo As desigualdades de mobilidade nas periferias da Região Metropolitana de Belo Horizonte: um estudo das atividades de comércio, lazer e saúde, de Eugênia Dória Viana Cerqueira, revelando suas recentes transformações e implicações na reestruturação da mobilidade quotidiana da população. O estudo aponta que os espaços periféricos são moldados pelas desigualdades na mobilidade nas periferias de Belo Horizonte, desigualdades que consistem “na dispersão dos serviços cotidianos, o que leva os moradores dos referidos espaços a se deslocarem através de múltiplos locais.

A metrópole contemporânea reconfigura seus espaços periféricos bem como seus espaços centrais. O artigo de Anderson Kazuo Nakano, Desigualdades habitacionais no “repovoamento” do centro expandido do município de São Paulo, aprofunda o debate sobre o repovoamento do centro de São Paulo através de moradias em cômodos, cortiços e assentamentos precários.

A questão habitacional reveste-se, portanto, de suma importância para espaços centrais e periféricos e para a mobilidade da população, como visto no artigo Minha Casa Minha Vida: periferização, segregação e mobilidade intraurbana na área conurbana de Florianópolis, de Eduardo Leite Souza e Maria Inês Sugai, que analisam a mobilidade intraurbana no contexto da periferização e da segregação socioespacial na Região Metropolitana de Florianópolis. Os empreendimentos do programa se constituem em agente da dispersão urbana metropolitana, inclusive amplificando o processo de periferização para franjas urbanas monofuncionais e sem acesso aos serviços básicos, exigindo intensa e cotidiana movimentação de seus moradores.

No âmbito da mobilidade intraurbana, o artigo Movilidad residencial de sectores medios y populares: la ciudad de Buenos Aires como punto de llegada, de Natalia Cosacov, María Mercedes Di Virgilio e Mercedes Najman, focaliza a importância da mobilidade residencial em Buenos Aires e sua interação com a própria estruturação do espaço. A dimensão espacial da mobilidade residencial evidencia percursos residenciais distintos entre setores populares e médios do espaço metropolitano, onde o lugar da residência nesse espaço é um elemento central para a compreensão da própria mobilidade residencial.

A pesquisa de campo apontou o mapeamento das sucessivas localizações de residências dos entrevistados, com a configuração de uma geografia de movimentos residenciais desiguais entre os espaços populares e os espaços médios que circulam por corredores distintos. As mobilidades residenciais “no sólo permiten articular prácticas residenciales con estructura urbana, sino que también ayudan a evidenciar esa particular imbricación entre experiencias de clase y modos desiguales de habitar” (p. 113).

O tema da mobilidade residencial também está presente no artigo Mudar de casa em Lisboa: perfis socioeconômicos da recente mobilidade residencial, de Maria do Rosário Jorge, João Fernandes, Patrícia Pereira, Cláudia Urbano, João Seixas e Luís Vicente Baptista, para o caso da cidade de Lisboa. Tal mobilidade determinada por fatores econômicos, sociais, culturais e psicológicos resulta numa alteração gradual da estrutura social da cidade e dos padrões de ocupação do território.

A mobilidade urbana, como deslocamento das pessoas na cidade, está contemplada na discussão de Estefanía Szupiany no texto Aquel lejano Oeste: paradojas de la (in)movilidad en la ciudad de Santa Fe, enfatizando a importância da infraestrutura viária como “lugares o espacios del movimento”. Aponta como o traçado histórico da cidade foi construído com o enfoque na mobilidade e imobilidade. A autora afirma que, atualmente, a mobilidade urbana se converte em mecanismo de integração dos bairros à margem Oeste, o que inclui múltiplas mobilidades de tipo material, simbólico e cultural.

A configuração metropolitana e os deslocamentos populacionais reforçam a mobilidade de tipo pendular nos espaços urbanos. No artigo Mobilidade pendular e integração regional: uma metodologia de análise para as regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, Carlos Lobo, Leandro Cardoso e Ivania Linhares de Almeida trazem as análises acerca da mobilidade pendular e integração regional para as regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, com os dados do censo demográfico de 2010. O estudo apresenta indicadores padronizados e agregados, extraídos da matriz origem e destino dos fluxos pendulares metropolitanos, e o nível de integração dos municípios das respectivas periferias, uma vez que os movimentos pendulares refletem “diretamente na produção do espaço metropolitano e indica, do ponto de vista social e geográfico, a emersão de novas centralidades urbanas” (p. 173). A mobilidade pendular ultrapassa o core metropolitano indicando novas centralidades periféricas.

Marden Campos, em seu artigo Ciclo de vida, estrutura domiciliar e migração no início do século XXI: o caso da Região Metropolitana de São Paulo, analisa a estrutura domiciliar da migração na Região Metropolitana de São Paulo, e os seus resultados apontam que migrantes intraestaduais possuíam, em 2010, maior renda, maior nível de escolaridade e inserção no mercado de trabalho semelhante aos não migrantes e perfil de migração familiar; migrantes interestaduais apresentavam características inversas aos intraestaduais. Segundo o autor, “Pode-se ‘inferir’ que os migrantes que se originaram de regiões socioeconomicamente mais favorecidas, em termos de renda e escolaridade, possivelmente tiveram maior ‘liberdade’ quanto à escolha da estratégia de migração, como a possibilidade de migrarem sós ou apenas com o cônjuge” (p. 204).

Para finalizar o dossiê, o tema da migração internacional compõe dois artigos. O artigo de Raúl Felix Barbosa e Maria Cristina Dadalto, Migración y la gobernanza global: en rol de las redes migrantes, traz ao debate o papel de migrantes no desenvolvimento de redes migratórias como estruturas de governabilidade da migração, cobrindo as lacunas que o sistema de gestão mundial das migrações não consegue contemplar. O estudo centra-se no argumento do poder da comunicação em uma sociedade em rede para governar as redes de migrantes.

O artigo de Carlos Freire da Silva, Conexões Brasil-China: a migração chinesa no centro de São Paulo, aborda a imigração chinesa na cidade de São Paulo como uma dinâmica migratória transnacional na escala da cidade, com impactos urbanos e nas dinâmicas transnacionais que se articulam a essa imigração. “Trata-se de pensar a incorporação de processos migratórios transnacionais em seu impacto na reestruturação das localidades” (p. 225).

Leia o artigo completo na edição nº 41 da Revista Cadernos Metrópole.

 

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